quarta-feira, 19 de março de 2008

Eddie e o seu Português brilhante

Um dos problemas de estar num país cuja língua não entendemos é que nunca percebemos muito bem quando alguém está a falar sobre nós e se, por acaso, está a dizer coisas boas ou más. Apesar de o meu Cantonês roçar a perfeição, tenho que admitir que não é fácil para mim compreender o que os meus colegas de trabalho dizem mas apenas pela velocidade a que falam pois acredito que se falassem um pouco mais devagar, conseguiria perceber tudo.

Um dia estava eu na minha secretária e aparece o Eddie que é o engenheiro chefe responsável pela manutenção de todas as cozinhas do Wynn. Pode parecer um trabalho fácil mas garanto-vos que no Wynn há muitas cozinhas e com um tamanho considerável. O Eddie já deve ter os seus 50, talvez 60 anos, mas muito bem vividos e talvez por isso seja uma pessoa extremamente bem disposta e cheia de energia. Põe-se na conversa com algum do pessoal do departamento e a certa altura fico com aquela sensação que o meu nome foi dito no meio da conversa. Fico a olhar para o meu monitor mas com os ouvidos concentrados na conversa para ter a certeza se o meu nome voltaria a ser pronunciado.Passado uns minutos reparo que o pessoal que está a falar com o Eddie começa a ter uns gestos como que a duvidar do que o Eddie dizia mas de um modo divertido. E o Eddie começa a olhar para eles quase como que ofendido por eles estarem a duvidar dele. Até que repente oiço o Eddie a soltar duas palavras que reconheci perfeitamente no meio daquele Cantonês todo... "BOM DIA!"... "CAR#$%&!"... o pessoal abre os olhos, muito surpresos, e desmancham-se a rir!Não sei o que se estava a passar mas achei por bem levantar-me e ir ajudar a esclarecer alguma dúvida em relação ao Português que estava a ser utilizado naquela conversa. Foi então que me puseram a par da conversa (explicaram-me em Inglês e não em Cantonês mas apenas para facilitar e para ser mais rápido pois se tivesse sido em Cantonês também perceberia...). O Eddie realmente estava a colocar algumas questões sobre o meu estágio e entretanto disse que ainda se lembrava bem de falar Português. O pessoal começou a gozar pois todas as pessoas que nascem em Macau são obrigadas a ter um ano de Português na escola mas é um Português tão básico e que associado à falta de prática no dia a dia acaba por ficar apenas na memória algumas palavras como "olá", "bom dia", "adeus", "obrigado", contar de 1 a 10, alguns palavrões e... curiosamente, "bacalhau" (talvez porque há alguns pratos em Macau que incluem o bacalhau sendo mais uma prova da influência Portuguesa), e como o Eddie tem uma idade em que parece lógico que os seus tempos de escola já devem estar algo esquecidos, todos duvidaram que ele ainda se lembrasse de algumas palavras. Ele lembrava-se perfeitamente daquelas duas palavras mas não foi motivo para parar com o gozo pois todos sabiam o seu significado... especialmente da segunda palavra...
Perguntei-lhe então se apesar de se lembrar dessas palavras se sabia o seu significado e ele muito convicto disse que sim, que sabia, que "bom dia" significava "good morning" e "car#$%&" significava "good afternoon"... fico a olhar para ele por uns segundos a tentar controlar uma gargalhada que se criara repentinamente dentro de mim. Começo a explicar que "bom dia" realmente significa "good morning" mas que "car#$%&" não significa, definitivamente, "good afternoon". Ele pergunta-me então o que significa e eu simplesmente aponto para uma determinada zona do meu corpo. O Eddie abre os olhos e depressa percebe o motivo dos risos do pessoal, tapando a boca com a mão como que a mostrar vergonha e embaraço por ter dito tal palavra.Mas apesar de tudo continuei a achar estranho aquela confusão e perguntei ao Eddie porque é que ele pensava e estava tão convicto que um palavrão pudesse significar "boa tarde". E ele explicou-me. O Eddie antes de ir trabalhar para o Wynn, trabalhava no Centro Cultural de Macau (é uma espécie de pavilhão Atlântico de Macau onde se realizam todos os concertos e espectáculos e que durante o mês de Fevereiro acolheu o concerto da Cesária Évora... como o Mundo é pequeno!) e uma das pessoas com quem trabalhava era Portuguesa. Quando o conheceu, inicialmente, dizia-lhe "bom dia" quando o via pela manhã e depois dizia-lhe de novo "bom dia" ao fim da tarde, quando saía do trabalho. Mas o Português depressa lhe explicou que após o meio-dia, para se dizer "good afternoon" em Português se diz "car#$%&" e não "bom dia". E a partir desse dia, todas as tardes, o Eddie se despedia do seu amigo Português com um animado e sonoro "CAR#$%&!".
Voltei a realçar ao Eddie que "car#$%&" não significa de modo algum "good afternoon" e decidi não lhe explicar que se diz "boa tarde" pois "tarde" tem a letra "r" no meio e como tal seria muito complicado para o Eddie pronunciar correctamente "boa tarde" e, provavelmente, ele acabaria por se esquecer pois eu saio às 17h e ele às 17h45 e raramente nos cruzamos ao fim da tarde, não havendo assim oportunidade para ele praticar diariamente. Mas comprovei mais uma vez que o povo Português tem um sentido de humor muito apurado...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Revolução

Ao longo do estágio tenho me apercebido que o trabalhador Chinês não é de se queixar muito. Trabalha 8 horas por dia, 6 dias por semana. Tem 12 dias de férias caso trabalhe para um empregador que não pertença ao governo de Macau e desses 12 dias apenas 6 podem passar para o ano seguinte e têm que ser utilizados nos primeiros 6 meses caso contrário perdem o direito a esses dias. É certo que os salários são elevados mas não lhes faz nenhuma confusão estas condições e quando ouvem que na Europa um empregado pode ter mais de 20 dias de férias por ano, abrem muito os olhos com um ar meio surpreendido meio chocado.Durante os almoços na cantina do Wynn, por vezes, tenho o privilégio de ter conversas bastante interessantes com o meu chefe, quando a hora escolhida coincide. Numa dessas conversas ele perguntou-me se estava satisfeito com as condições da residência universitária East Asia Hall. Fui sincero e respondi-lhe que são aceitáveis ainda para mais tendo em conta que não tenho que pagar a minha estadia mas realcei o facto de que uma residência construída há 2 anos podia e devia ter melhores condições do que as que tem apesar de estas serem mais que suficientes. Fiquei a saber depois que o Wynn tem 3 dormitórios para os empregados que vêm da China e outros países estrangeiros mas o meu chefe achou que seria melhor ficar na residência universitária pois nos dormitórios do Wynn um quarto é partilhado por 6 pessoas. Não me contive e exclamei de imediato:
- Um quarto para 6 pessoas?!?!
- Sim - responde ele com muita naturalidade - mas atenção que enquanto 3 pessoas estão de folga as outras 3 estão a fazer o seu turno, por isso acaba por ser 3 pessoas por quarto. Como na residência so tens que partilhar o quarto com mais 1 pessoa, achei que seria melhor para ti.
Nesta altura já nem estava a pensar nas minhas condições, pensava apenas como 6 pessoas se orientam num quarto. Ainda para mais num quarto típico de um dormitório. Disse então:
- Se fosse na Europa, provavelmente os empregados fariam uma manifestação ou entravam em greve para exigir melhores condições nos dormitórios.
O meu chefe começa a rir-se e diz:
- Ah sim! Na Europa por qualquer pequeno motivo começam logo "Greve! Greve! Greve!".
Penso para mim mesmo e acabo por admitir:
- Pois, parece que aqui tem-se mais capacidade de sacrifício do que na Europa...Passado uns dias, entro na cantina para almoçar, começo a preparar o tabuleiro e enquanto ponho o esparguete no prato noto que há uma certa agitação nos empregados inclusive os meus colegas de departamento. Todos trocam um olhar meio indignado, como que à procura de algo, até que começam a falar entre eles com um ar ainda mais indignado! Parece que uma revolução está prestes a rebentar! Começo a pensar se estão assim por lhes ter dito que na Europa tem se direito a mais de 20 dias de férias por ano... devia ter ficado calado... queres ver que mais um bocado vêm ter comigo, enfiam-me uma boina na cabeça, pedem para deixar crescer a barba e começar a gritar "Hasta la victoria siempre!"...
Olho para o Andy que também estava a comentar algo muito agitado com um colega que nem é do departamento de engenharia e quando se cala, aproveito a pausa para lhe perguntar com um certo cuidado o que se passa. Ele responde muito chateado:
- Ainda não reparaste? Não há arroz! Como é que é possível?!?!
Pela primeira vez o arroz tinha acabado na cantina e ainda não tinha sido reposto. Passado uns minutos aparecem dois empregados da cantina, cada um com um grande recipiente de arroz para substituir os que tinham terminado. Assim que abriram as tampas dos recipientes e o arroz ficou à vista, todos os empregados se calaram fazendo uma expressão do tipo "Ah bom!". Os que já se tinham servido com esparguete, como eu, ainda quiseram voltar atrás para se servirem com o arroz mas a fila já estava grande e lá continuaram a servir-se, resignados com o esparguete.Podem não fazer greve e ter uma grande capacidade de sacrifício mas, se for necessário, em condições desumanas sabem como fazer a sua própria revolução!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Como se diz "hospital" em Chinês?

Antes de vir para Macau como qualquer pessoa que vem passar uma temporada longe do seu país fiz um seguro de vida. Mais vale prevenir do que remediar mas a verdade é que é algo que se faz mas que se deseja ao máximo que não seja necessário recorrer. Os exames médicos realizados em Portugal mostraram que o Cigano felizmente se encontra com saúde e tem tudo em ordem em termos de vacinação, por isso vim com a forte convicção que o seguro foi feito apenas para ficar de consciência tranquila.

Foi por isso com alguma estranheza quando me apercebi que ao fim de 3 semanas em Macau tive que ir ao hospital 2 vezes em apenas 3 dias... mas calma pois fui ao hospital mas para ajudar 2 amigos da residência que necessitaram de ir lá... sim porque aqui o Cigano felizmente tem estado bem de saúde apesar de não ter tido oportunidade ultimamente para praticar qualquer tipo de desporto.

Passo a explicar, estava a regressar da Taipa onde tinha ido jantar com o Karl e o Marcel quando o meu telemóvel começa a tocar... era o Gardete... atendo e ele começa a falar num tom muito preocupado que precisa de ir ao hospital e precisa de alguém que explique em Inglês os seus sintomas já que o seu Inglês não é suficiente para explicar esse tipo de situações. Acelero o passo enquanto acabo o meu sundae rapidamente e chego à residência. O Gardete já está à minha espera na entrada, dobrado sobre os joelhos como a contorcer-se com dores... está com fortes dores de barriga e não aguenta mais a dor. Despeço-me do Karl e do Marcel e começo a ir com o Gardete para o Casino Greek Mythology onde há uma praça de táxis. Enquanto esperamos por um táxi aproveito para ir levantar dinheiro.
Quando regresso vejo o Gardete a falar para um taxista, olha para mim meio desorientado e diz-me que ele não sabe Inglês... e agora? Estou em Macau há 3 semanas e ainda não tive tempo para que o meu Chinês atinja a perfeição e saiba como dizer "hospital". Digo ao taxista várias palavras em Inglês, "hospital", "doctor", "medicine", "sick" e o nome do hospital em Português "São Januário"... é escusado, ele olha para nós como o Sr. Dr. Eng. Sócrates a olhar para um projecto de Engenharia civil. Digo então ao Gardete para se voltar a dobrar, agarrar a barriga e gemer de dor... o taxista continua sem perceber... começo a gesticular como se estivesse a usar um estetoscópio e a observar a barriga do Gardete... voilá! O taxista finalmente percebeu! Solta uma palavra qualquer que parto do princípio que é "hospital" e tem a reacção natural de uma pessoa que percebe que há alguém que precisa de ir ao hospital... começa a rir-se sem conseguir parar!

O Gardete senta-se no banco da frente do táxi e eu, enquanto abro a porta para me sentar no banco de trás apercebo-me que o taxista começa a falar com outro taxista que está na fila dos táxis e começa a rir-se também de um modo descontrolado. Já dentro do táxi, o taxista entra ainda a rir-se de um modo bastante divertido. O Gardete aperta o cinto enquanto diz "Digo-te que estou com dores e tenho que ir ao Hospital e começas a rir-te. Tem cá uma graça, meu filho da p%#&!". A viagem até ao hospital foram cerca de 5 minutos (começo a perceber que Macau é mesmo pequeno) mas foi complicada pois tive que fazer um esforço enorme para não me rir com o comentário do Gardete para que ele não pensasse que estava a fazer companhia ao taxista.

Chegados ao hospital vamos ao balcão de recepção, falo com o empregado em Inglês e ele pede para o Gardete preencher os seus dados pessoais e mostrar o passaporte e visto. Diz depois para aguardarmos na sala de espera até que o médico o chame. Passado 5 minutos ouve-se o nome do Gardete nos altifalantes. Entra numa sala pequena, onde esta uma médica sentada. Começa a perguntar o que ele está a sentir. O Gardete vai descrevendo-me como se sente enquanto eu traduzo para Inglês e digo à médica. Ela toma uns apontamentos e manda-nos aguardar de novo na sala de espera.
Enquanto esperamos noto em certas semelhanças entre este hospital e o hospital de São José em Lisboa. Um edifício velho com material antigo. Mais um vestígio da presença Portuguesa em Macau. Ficamos à espera e durante este tempo vamos ouvindo vários nomes Chineses a serem chamados pelos altifalantes. Após cada nome Chinês o Gardete vai soltando um chateado "Fod$%-&*!". Ao fim de uma hora com o Gardete sempre calado e com cara de poucos amigos acabam por o chamar. Já está sem dores após tão longa espera mas quer ir na mesma e dizer que ainda está com dores. Faço mais uma vez de tradutor. A médica diz-lhe que não é nada de grave e chama-lhe a atenção para os horários das refeições visto que o Gardete por vezes não almoça e janta por volta da meia noite. Se ela soubesse os temperos e ao que cheira a comida africana que o Gardete cozinha no quarto, que por vezes me acorda quando ele janta depois da meia noite, talvez ela fizesse um exame profundo ao seu estômago para confirmar que ele ainda tem estômago. Apesar de tudo ainda lhe receitou uns comprimidos.
No próprio hospital existe uma espécie de pequena farmácia onde o Gardete pode obter de imediato os seu comprimidos. O custo desta urgência com comprimidos incluídos foi cerca de 4 euros. Acabou por ficar mais cara a deslocação de táxi do que o serviço prestado no hospital. Voltamos para o quarto já passa da 1h da manhã. O Gardete de imediato toma os comprimidos na esperança de não voltar a ter aquelas fortes dores. Deito-me a tentar não pensar no comentário do Gardete dentro do táxi para não me começar a rir sozinho...

Passado dois dias, após o jantar fui ao quarto do Marcel e do Karl para trocar umas fotos do Grande Prémio de Macau com o Marcel. Chego ao quarto e o Karl está com o Skype ligado, com um ar preocupado e à espera que o atendem. Está a telefonar para o número de assistência médica da Suécia. Passado uns minutos começa a falar em Sueco com uma médica e a descrever-lhe como se está a sentir. Tem uma dor na zona à volta do coração e o seu braço esquerdo está dormente. A médica diz-lhe que tendo em conta a zona afectada o melhor é dirigir-se ao hospital para ter a certeza que está tudo bem.

O Karl ao desligar o Skype de imediato me pergunta onde fica o Hospital e o que é necessário para ser atendido nas urgências. Explico-lhe detalhadamente quais os procedimentos que realizei quando há dois dias atrás tinha ido lá com o Gardete. Acabada a explicação o Karl fica a olhar para mim calado... digo-lhe "OK, vamos andando!". Enquanto nos dirigimos para o táxi perto do Casino Greek Mythology. Explico-lhe que se o taxista não souber falar Inglês temos que representar um pouco para ele perceber que temos que ir ao hospital para ser visto por um médico.
Chegados ao táxi tentamos falar com o taxista em Inglês... não sabe Inglês... quando vou a dizer para o Karl esboçar um gesto de dor enquanto eu faço de médico, o Karl inicia uma representação que quase me faz lembrar a morte da personagem do Willem Dafoe no filme "Platoon - Os Bravos do Pelotão". Surpreendido com a actuação digna de um Oscar, o taxista rapidamente percebe que queremos ir ao hospital. Desta vez o taxista não se riu pois o teatro foi muito sério e não uma comédia como aquela que eu e o Gardete representámos há dois dias atrás.

Após os mesmo procedimentos, o Karl é visto pela médica que lhe diz para esperar. O Karl não soltou palavrões enquanto diziam nomes Chineses ao altifalante durante uma hora e meia até porque para perceber um Chinês a dizer Kallen Rydberg exige uma concentração máxima. Durante esse tempo tentei falar com ele para ver se o distraia e não stressava mais com aquela dor incomodativa e preocupante. Falamos de tudo um pouco. Desde Macau, passando pela Europa, os estudos de cada um, as políticas da Suécia e Portugal, a hora e meia acabou por passar sem se dar por isso. O método do hospital é bastante eficaz pois após esperas de hora e hora e meia qualquer dor desde que não seja totalmente grave acaba por passar. Contudo o Karl lá foi para explicar o que estava a sentir ou, nesta altura, tinha sentido.

Nada de grave, possivelmente uma problema muscular naquela zona causada pelo peso da mochila que carregou enquanto visitou Pequim uns dias atrás. Mais uns comprimidos receitados. Cerca de 5 euros pelo serviço de urgência prestado. Mais uma vez o táxi vai ficar mais caro que o tratamento em si. Mais uma vez chego ao quarto depois da 1h da manhã, tendo que me levantar no dia seguinte às 7h30 da manha. Já conheço melhor o hospital de Macau do que certos pontos de atracção turística de Macau.

Não posso deixar de referir o pormenor mais curioso e que marca a diferença entre um hospital Português e o hospital São Januário de Macau. Ao entrarmos no hospital é nos fornecido uma máscara daquelas habitualmente utilizadas pelos médicos e enfermeiros para diminuir ao máximo o perigo de contágio entre os pacientes. É uma prevenção que faz todo o sentido mas ao mesmo tempo faz nos sentir que podemos estar numa situação mais preocupante do que na realidade é. Para terem uma ideia do aspecto que se tem com aquela máscara na cara, vou fazer algo que não pretendia fazer neste blog que é mostrar parte do meu belo rosto. Aqui vai uma foto para terem uma noção.
Óbvio que sendo noite e estando dentro de um edifício, não levei comigo o chapéu e os óculos de sol mas se soubesse que combinavam tão bem com a máscara talvez tivesse pensado duas vezes antes ir para o hospital.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Algo me diz que é melhor não...

Graças ao Ano Novo Chinês tive direito a 3 dias de férias que na realidade foram 4 pois foram juntos ao dia de folga semanal. Foram dias que souberam muito bem pois houve tempo e possibilidade para sair à noite, encontrar com amigos para almoçar ou jantar e visitar Macau ao mesmo tempo que se ia observando o modo de festejar a chegada do Ano do Rato. Num desses dias visitei finalmente aquele que deve ser o ponto de atracção turístico principal de Macau, as Ruínas de São Paulo.
É sem dúvida curioso como tendo sobrado apenas a fachada principal desta antiga igreja o seu estado de conservação contudo é quase perfeito. Um monumento bem bonito que nada fica a dever a outros situados na velha Europa. Custa a acreditar que algo assim esteja situado numa pequena e estreita rua paralela à avenida principal que tem origem no largo do Senado. Infelizmente não era o único que me encontrava em férias e como tal havia centenas de turistas, essencialmente vindos da China e que fizeram uma pausa no casino onde estavam a jogar para poder visitar um pouco de Macau, o que dificultava bastante a circulação para melhor apreciar a vista.
Sendo já final de tarde e com o estômago a exigir um lanche para repor energias após todas aquelas caminhadas ao longo de Macau, achei que seria uma boa ocasião para experimentar o famoso "jiu pa bau". O "jiu pa bau" (eu podia escrever em Chinês mas não me quero exibir e assim é mais fácil para aqueles que não sabem ler Chinês perceber o modo como soa a palavra) e um típico snack de Macau e que consiste num bife de porco frito, por vezes acompanhado com um pouco de cebola também ela frita e servida dentro de um pão. Como já devem ter percebido é uma simples bifana e é mais uma das influências deixadas pelo povo Português. Sorte a minha quando reparei que nessa mesma rua estreita onde se situam as Ruínas de São Paulo existe uma loja que vende apenas "jiu pa bau".
Aproximei-me para ver o aspecto da loja e os preços que praticava. Foi então que voltei a olhar com mais atenção para o símbolo da loja e fui repentinamente atacado por uma estranha sensação... Não sei se lhe hei-de chamar instinto, sexto sentido, feeling, intuição... chamem-lhe o que quiser mas só conseguia pensar "Algo me diz que é melhor não..." e decidi afastar-me aos poucos e esperar até à hora de jantar para ir a um dos restaurantes que costumo frequentar e que tem apenas placas com o seu nome e nada de símbolos a causar estranhas sensações...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Kung Hei Fat Choi!

É esta a frase mais ouvida desde 7 de Fevereiro de 2008 ou, segundo o calendário lunar Chinês, 1 de Janeiro do ano do Rato. Ao dizer isto a alguém significa que lhe estou a desejar saúde para o novo ano. O calendário lunar Chinês tem algumas diferenças em relação ao calendário ocidental. Apesar de também ter 12 meses, cada mês tem sempre 30 dias e no dia 1 é sempre lua nova enquanto no dia 15 é lua cheia. A Primavera começa por altura do ano novo e devido a isso é associada uma mudança do tempo durante a passagem de ano. Para que o calendário Chinês não fique muito desfasado do calendário Ocidental, a cada 4 anos o ano Chinês tem 13 meses sendo que o mês repetido é Julho. Um Chinês festeja o seu aniversário duas vezes, na data de acordo com o calendário Ocidental e que é habitualmente festejado entre amigos e na data de acordo com o calendário Oriental e habitualmente festejado com a família. Os anos não são contados em números mas pelos 12 zodíacos Chineses que são, por ordem crescente, o Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco. O Chinês tem o seu zodíaco sempre determinado pelo ano em que nasceu.Passámos do ano do Porco para o ano do Rato e podemos dizer que a venda de produtos com a imagem do rato Mickey disparou consideravelmente nos últimos tempos. No McDonald's andam a vender umas batatas fritas especiais, enroladas e com um sabor ligeiramente diferente que vem numa caixinha com a cara de um rato desenhada. As crianças andam vestidas como ratos como se estivéssemos em pleno Carnaval. Nesta altura o melhor mesmo é deixar de parte a imagem que temos de um rato num esgoto ou num armazém e vê-lo como aquela criatura adorável retratada no Ratatouille e que até lavava as mãos... ajuda a superar o momento!Pela primeira vez tive que esperar apenas 37 dias desde a última passagem de ano para voltar a festejar a chegada de um novo ano o que é bem mais engraçado em vez de ter que esperar aqueles longos 365 ou 366 dias. E depois não se tem tanto aquela sensação de envelhecer pois entrei no ano do Rato e não no ano de 2008 que faz lembrar que já faz quase 27 anos que vim ao Mundo. Nesta passagem não houve contagem decrescente acompanhado de champanhe e passas nas últimas badaladas do dia 6 de Fevereiro mas em compensação já faz uns dias que tenho tido problemas para adormecer devido ao fogo-de-artifício que se inicia às 19h e termina por volta da 1h da manhã. Mas não tenho com que me preocupar, dizem que vai ser assim ao longo da próxima semana... Como seria muito caro pagar a empresas profissionais do ramo do fogo-de-artifício para lançarem o fogo durante uma semana e cerca de 6 horas por dia recorrem a um método muito simples. Preparam terrenos próprios com barracas que vendem todo o tipo de produtos pirotécnicos e com zonas para os fazer explodir. Assim qualquer pessoa pode ir a esse terreno, comprar o tipo de fogo-de-artifício que mais lhe agrada e lançá-lo! É extremamente perigoso mas sai mais barato e no poupar está o ganho! A insistência durante estes dias com o fogo-de-artifício é devida a uma antiga lenda sobre um monstro que atacava as populações e apenas foi afugentado usando o fogo-de-artifício como arma. Assim tem-se a certeza que o monstro não se vai por com ideias só porque entramos num novo ano.A parte mais agradável do Ano Novo Chinês é sem dúvida as ofertas de Lai Si! Os Lai Si são pequenos envelopes vermelhos muito bem decorados e com algumas palavras Chinesas que habitualmente significam "fortuna" ou "saúde". São oferecidos pelas pessoas já casadas às pessoas solteiras e no seu interior vem habitualmente cerca de 20 Patacas embora quando a oferta é feita entre familiares possa atingir valores consideravelmente elevados. Eu até ao momento já recebi 9 Lai Si e tendo em conta o preço a que se consegue ter uma refeição num restaurante aqui em Macau podemos dizer que vou ter jantares oferecidos pelo menos nos próximos 5 dias. Fantástico! E não me posso esquecer dos 5 jantares de fim de ano de diferentes departamentos do Wynn em que a conta foi paga pelo director do respectivo departamento. Eu até pagava mas já que insistem... Eu posso estar a passear nas ruas de Macau e caso me apeteça petiscar algo, basta procurar um casal, ver se tem aliança de casamento e soltar um feliz "Kung Hei Fat Choi!" que eles terão que me oferecer um Lai Si e assim poderei ir a uma pastelaria comprar um pastel de nata (Portuguese egg tart como eles chamam aqui) ou ao McDonald's comer um sundae para enganar a larica.O Ano Novo Chinês é uma espécie de Natal e passagem de ano num só como o mais banal dos champôs com amaciador, o chamado 2 em 1. Semanas antes todas as ruas ficam decoradas com iluminação, bandeiras, bonecos e cartazes com referências ao Ano Novo e as pessoas iniciam as suas compras de modo a que possam utilizar algo novo nos primeiros dias do Ano Novo. As ruas do centro de Macau onde se encontram todas as lojas parecem os corredores do Colombo na véspera do 25 de Dezembro. Eu próprio, que aproveitei essa tradição para comprar uns All Star que há tanto tempo procurava e que aqui em Macau encontrei originais e a um preço quase idêntico caso tivesse comprado uns falsos na feira de Carcavelos, vi-me impedido de entrar em certas lojas simplesmente porque não cabia lá mais ninguém. A tradição diz que se deve utilizar tudo novo nos primeiros dias para que se tenha um novo início em todos os aspectos mas caso não seja possível então que seja pelo menos uns novos sapatos e calças. Os sapatos novos servem para pisar todas as pessoas que nos desejam mal mas atenção que os sapatos tem que ser comprados antes do primeiro dia do Ano Novo pois em Chinês a palavra "sapatos" soa a "ai" e devido a este pormenor nunca se compram no primeiro mês pois é como estar a comprar um suspiro de desânimo e tristeza para o resto do ano! "Calças" dito em Chinês tem uma entoação muito semelhante à palavra "rico" e como tal umas calças novas poderão trazer alguma riqueza para o ano que se avizinha!A decoração é tipicamente Chinesa mas sobressai bastante as pequenas árvores com pequenas laranjas e os Lai Si pendurados tal e qual a decoração de uma árvore de Natal. As pequenas laranjas são utilizadas também devido a uma questão de entoação pois em Chinês a palavra "laranja" tem um som semelhante à palavra "próspero". É óbvio que todas estas tradições podem não valer de muito pois os Chineses também têm o hábito de vir a Macau nos primeiros dias do Ano Novo para jogar nos casinos na esperança que o novo ano traga sorte ao jogo mas , como devem imaginar, a roleta, as cartas e as slot machines não possuem qualquer tipo de relógio e o seu comportamento é o mesmo dos restantes anos passados fazendo com que muita gente fique sem dinheiro para colocar nos Lai Si...Proponho que a cultura Ocidental adopte algumas das tradições do Ano Novo Chinês... especialmente a parte dos 3 dias de feriado e os Lai Si... por falar em Lai Si, tenho que ir à rua à procura de um casal que está quase na hora do jantar...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Para evitar confusões...

O meu cabelo neste momento encontra-se com um comprimento considerável e não sei se será possível cortá-lo apenas quando regressar a Portugal. Apesar de muitas vezes apresentar um ar desleixado, tão característico dos ciganos, o cabelo sempre foi uma preocupação. Não querendo recorrer aos "milagres" da cirurgia estética, o cabelo é a única coisa que se pode alterar e cuidar para obter a imagem que mais nos agrada. Isso não é nada fácil considerando a quantidade de remoinhos e outros feitios que o meu cabelo apresenta e que faz com que tenha uma poupa peculiar (para não usar outra palavra mais depreciativa) ao longo de todos estes anos de vida.

Estou com uma preocupação evidente tendo em conta que o meu Cantonês, apesar de roçar a perfeição, não é ainda suficiente para explicar detalhadamente a um cabeleireiro Chinês o que pretendo ao cortar o cabelo. Não consigo arranjar maneira de lhe dizer para ter cuidado quando cortar o cabelo atrás porque tenho dois remoinhos juntos que levantam o cabelo e como tal não pode ser cortado à máquina mas sim à tesoura de modo a ficar com um comprimento suficiente que possa disfarçar. Outro factor que me deixa também bastante apreensivo são os variados cortes de cabelo que os Chineses utilizam. Não sei se é moda ou não mas uma coisa é certa... não gosto e não desejo trocar a minha mítica poupa por esses tipos de penteados.

Em Macau aprende-se com o passar do tempo a superar o obstáculo da linguagem embora volte a realçar que o meu Cantonês praticamente roça a perfeição. Quando a comunicação não pode ser feita com o mesmo tipo de sons, os gestos valem muito e uma imagem pode valer ouro! Decidi então que caso seja mesmo necessário cortar o cabelo aqui em Macau irei recorrer a imagens para expressar da melhor maneira aquilo que definitivamente não pretendo e aquilo que gostaria ou pelo menos não me importaria de obter. Esperemos que resulte para não desiludir todos os fãs da minha poupa...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Grand Prix Macau

Todos os anos, em meados de Novembro, realiza-se um dos mais importantes e famosos eventos de Macau, o Grande Prémio. Tive o privilégio de assistir ao que podemos denominar como o GP do Mónaco Asiático. Tal como no GP do Mónaco as ruas da cidade transformam-se para formar o circuito que vários tipos de carros e motas percorrerão a altas velocidades. Os preparativos iniciam-se cerca de um mês antes e dão outra animação ao local. A confusão aumenta mas também traz benefícios pois todos os anos renovam as estradas.

O evento dura 4 dias, de 5f a Domingo, e nesses dias nota-se claramente um aumento do número de visitantes, especialmente vindos da Europa e da América do Norte ostentando roupas com símbolos de marcas de automóveis. Os autocarros nesses 4 dias são gratuitos o que faz com que apanhar um autocarro seja uma autêntica aventura ou mesmo uma missão impossível e não apenas nas horas de ponta mas ao longo do dia, daí ter chegado atrasado alguns minutos ao trabalho nesses dias pois os autocarros estão tão cheios que nem se deslocam até certas paragens.Tendo apenas o domingo como único dia de folga ficou logo fora de questão assistir aos treinos durante a 5f e 6f e à 41ª Edição do GP de Motos de Macau no Sábado. Contudo, Domingo é o grande dia pois realiza-se a Corrida da Guia de Macau do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo durante a manhã e o GP de Macau de Fórmula 3 durante a tarde intervalados por outros pequenos eventos. Não assisti aos primeiros 3 dias mas não deixou de ser engraçado pela manhã estar a tomar banho ou a caminho do trabalho e ouvir o som das acelerações das motas e dos carros (consegue-se ouvir perfeitamente o roncar dos motores na Taipa).Fui ao GP na companhia do Karl e do Marcel. Tal como eu nunca tinham assistido a tal evento, quer em Macau quer nos seus países, Suécia e Suíça. A organização do evento é boa ao ponto de termos comprado bilhetes de estudantes (os mais baratos) para a bancada B, que só tem lugares em pé, e acabarmos por ficar confortavelmente sentados na bancada A. Apenas durante a corrida dos carros de turismo é que me apercebi que um dos participantes era o nosso conhecido Português Tiago Monteiro. As reacções de cada um de nós foram algo diferentes, enquanto eu e o Karl vibrávamos a cada passagem dos carros com aquela sensação real de alta velocidade, tentativas de ultrapassagens e razias entre carros e railes de protecção, o Marcel ao fim das primeiras 3 voltas, pegou na câmara e foi dar uma volta a ver se tirava fotos às meninas do GP.Acabei a corrida a torcer intensamente para que o Tiago Monteiro chegasse ao 3º lugar e conseguisse o pódio mas nada feito... Após comermos umas sandes e bebidas à borla (gentilmente cedidas pelo Arnau que estava a trabalhar num stand de comes e bebes) que serviram de almoço, tivemos mais uma prova da boa organização e acabámos por nos sentar na Grande bancada que fica mesmo à frente do ponto de partida do circuito e cujos bilhetes devem ser o triplo do preço dos bilhetes de estudantes. A Fórmula 3 foi ainda mais impressionante devido à potência dos motores. A cada passagem era ver toda a gente a tapar os ouvidos e a rodar as cabeças várias vezes. O Marcel mais uma vez só aguentou 3 voltas... Durante estas duas corridas, reparei que enquanto esperava que os carros passassem de novo, por vezes, havia uma certa agitação nas bancadas e comentários entre as pessoas. Eu e o Karl bem que olhávamos para todos os lados a ver se havia alguma escaramuça ou se a namorada do Tiago Monteiro estava nas bancadas mas a verdade é que não se passava nada... até que depois acabámos por perceber... toda a agitação era quando no ecrã gigante, que transmitia a corrida em directo, ocorria um acidente, algo que é bastante frequente neste circuito por ser de pequenas dimensões. Os Chineses vão ao GP mas não é para sentir altas velocidades, nada disso... vão lá para ver acidentes! Foi então que percebi porque é que a bancada Lisboa, que fica entre o Wynn e o Hotel Lisboa, é ainda mais cara do que a bancada VIP... é que na curva Lisboa é onde ocorrem todos os acidentes e é isso que o povo Chinês quer... carroçaria amolgada e fumo a sair dos motores... e pagam bem para ver isso...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Vem orientar para seres enganado

Esta semana estou a participar na orientação dos novos alunos estrangeiros da Universidade de Macau. Tendo em conta que estou em Macau há mais de 2 meses e meio e já sou considerado um "veterano", a associação que me proporcionou o estágio pediu-me para participar nos jantares de modo a poder conhecer os novos habitantes da residência e ajudá-los a adaptarem-se o mais depressa possível a este país tão especial. Tem sido engraçado conhecer pessoas dos mais variados países (França, Espanha, Brasil, USA, Holanda, Colômbia, Alemanha, Suécia, sem contar com os que ainda não conheci...) e ajudá-los com as mesmas dúvidas que tive nos primeiros dias que passei em Macau.

O programa da orientação inclui, todos os dias, jantares em restaurantes de cozinhas diferentes. O primeiro jantar, na segunda feira, foi num restaurante de comida Chinesa. Fui com vontade de mostrar ao pessoal que a comida Chinesa é bastante boa se se souber escolher os pratos certos e como tal não havia motivos para preocupação. As organizadoras da orientação levaram-nos até um restaurante perto do centro de Macau. Ao entrar não estranhei muito o interior do restaurante pois era semelhante a outros dois onde tinha estado com o pessoal do trabalho. Quando estávamos todos sentados nas várias mesas à espera da comida as organizadoras pediram a todos para se levantarem e irem à rua ver a preparação do jantar. Estranhei e foi então que comecei a perceber que aquele tipo de restaurante Chinês não era bem igual aos que já tinha frequentado.

À entrada do restaurante havia uma espécie de cozinha exterior onde se encontravam várias pessoas a preparar a comida com alguns baldes à volta deles. Ao aproximar-me reparo que um dos baldes tem água com cobras lá dentro. Um dos "cozinheiros" tira uma cobra do balde, pega numa tesoura, espera que a cobra pare de mexer e com a tesoura arranca a cabeça da cobra. O corpo da cobra continua a mexer-se de um modo muito agitado mas já não há nada a fazer... a cabeça está no chão e não me parece que se consiga voltar a juntar nem com super-cola 3. De seguida e sempre com a tesoura, começa a fazer um corte ao longo de 1 metro de comprimento do corpo da cobra para poder arrancar a pele e retirar os intestinos. E está pronta a ir para o lume!Ao lado dos baldes encontrava-se também uma gaiola. Olhei e vi um grande amontoado de rãs. Outro "cozinheiro" abre a porta da gaiola e agarra numa das rãs. Coloca-a numa mesa, pega numa faca de talho, faz pontaria e vejo a cabeça da rã a voar até parar no chão perto dos pés de uma das estudantes que ficou com um ar ainda mais enjoado do que já estava... O "cozinheiro" depois limita-se a apertar o corpo da rã de modo a que os intestinos saiam pelo interior do pescoço que ficou à vista de todos depois daquela facada precisa. Retiram depois a pele, cortam o resto do corpo em vários pedaços como se de um frango se tratasse e está pronta a ir para o lume!
Mandaram-nos de volta para dentro do restaurante, para nos sentarmos e começarmos a comer. Veio uma travessa de arroz, umas espécies de camarões, carne de porco agridoce, noodles (ou chao min como chamam em Portugal) com tiras de carne de vaca e alguns vegetais cozidos a servir de salada. Nada daquilo me era estranho e como tal atirei-me ao porco agridoce que é simplesmente delicioso. Entretanto metem na mesa um prato com vários pedaços de carne mas apesar das inúmeras perguntas as orientadoras não nos respondiam. Pego num dos pedaços e começo a comer. A carne não tinha muito sabor e ao mastigar mais parecia pastilha elástica e tinha uma pequena cartilagem no centro que não dava para comer. Após todos (ou quase todos) provarem acabam por nos dizer que são línguas de pato. Sinceramente, prefiro a língua de vaca ou borrego.

Passado uns minutos uma das orientadoras traz um prato numa mão mas bem alto, sem nos deixar ver o que está lá dentro, e uma colher na outra mão e começa a distribuir um pedaço da comida que está no prato a cada um de nós sem dizer o que é. O sabor até é agradável e come-se bem. Perguntamos o que é. A orientadora pega numa taça e tira de lá uma minhoca viva com cerca de 10 a 15 cm de comprimento e 2 cm de grossura e mete-a no meio da mesa. Alguns levaram a mão à boca, eu fiquei a olhar para a minhoca a pensar "então é a isto que tu sabes... está giro!".

Próximo prato surpresa é posto em cima da mesa à vista de todos. Parece pedaços de pescada frita. Começamos a comer. A carne é muito fina e encontra-se muito perto das supostas espinhas. É agradável mas não muito saboroso. A orientadora pergunta-nos se gostamos da cobra... não estava mal... podia ser mais gorduchinha...

Mais um prato na mesa. Este não dá para enganar, pelo formato dos pedaços são as pernas de rã. Uma carne branca e brilhante a rodear um pequeno osso. Pego numa e começo a comer como se fosse uma pequena perna de frango assado. Delicioso! Volto a repetir mais umas vezes. Um autêntico petisco!

A orientador chega com outro prato e mostra-nos algo que parece uma tarte feita à base de ovos. Com uma colher tira pedaços e começa a dar de comer a cada um. Já nem perguntamos o que é antes de toda a gente provar o prato. Não tem um sabor muito agradável e é seco. A orientadora coloca a tarde no meio da mesa e começamos a olhar para o interior da tarte. Reparamos que há algumas lagartas no meio da tarte. Dou um golo mais prolongado na minha Tsingtao para tirar aquele sabor das goelas e não volto a repetir. Prefiro a tarte com fiambre e queijo ou com cogumelos...

Último prato. Bem lá no alto para ninguém ver. A orientadora pede-nos para fecharmos os olhos e abrirmos a boca. Com a colher deixa cair um pequeno pedaço para dentro da boca de cada um. Assim que cada um mastiga pela primeira vez temos todo o tipo de reacções. Uns começam a cuspir para o prato, outros engolem de imediato e atiram-se à Tsingtao como se tivessem passado vários dias num deserto. Um dos estudantes pergunta se alguém quer pastilhas Fresh Air. Acabaram em 5 segundos. Perguntamos o que é. A orientadora coloca o prato no centro da mesa e diz-nos que é o ovo dos insectos, ou por outras palavras, larvas.Acabo o jantar a pensar para mim mesmo que vim com a intenção de orientar o pessoal mas acabei por ser bem enganado. Quando me diziam "Ah e tal, vais lá para a China, ainda vais comer cobra e aquelas cenas que eles tem para lá..." deixava-me rir e nem punha tal hipótese e agora... No dia seguinte, no trabalho, ainda a recompor-me do jantar, comento com o pessoal que experimentei cobra, língua de pato, pernas de rã, lagartas e larvas. Fizeram-me todos um olhar enojado como que a dizer "Mas tu comes essas merdas?". Não percebo... De qualquer modo, o resto do tempo que passar aqui em Macau não tenho intenção de voltar a repetir este tipo de comida... embora as pernas de rã... mas não... vou me limitar ao delicioso dim sum! Isso sim, é boa comida Chinesa!

Há que ver o lado positivo da coisa, ao menos não serviram leite com preservativos...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sendo assim...

A única sensação que pode igualar a sensação de acordar na manhã do único dia de folga da semana, sabendo que se pode dormir mais umas horas, é a de sair do trabalho na véspera do dia de folga, ir para casa consciente que o ritual que se repete 6 vezes por semana não vai ser necessário no dia seguinte possibilitando que nessa noite se possa prolongar o tempo de lazer sem haver a preocupação de deitar cedo.

Numa dessas noites decidi ir jantar com o pessoal de Portugal, que também está a trabalhar em Macau, ao restaurante O Santos na parte velha da Taipa que, volto a realçar, tem uma bonita decoração e onde pude finalmente conhecer o famoso Senhor Santos, nascido em Montemor-O-Novo, antigo marujo e residente em Macau há mais de 20 anos mas ainda com sotaque alentejano e bem lembrado da localização de Moura e Pias.Enquanto olhava para o menu e comia o chouriço assado com pão e um pastel de bacalhau, apercebi-me que, apesar de já ser um conhecedor e apreciador da cozinha Chinesa, Coreana, Japonesa e Tailandesa, a comida Portuguesa quando me aparece à frente depressa desaparece e volto a lembrar-me que é sem dúvida uma das melhores cozinhas do Mundo.

Foi uma escolha difícil entre a posta à Mirandesa e os secretos de porco mas não me arrependo da decisão pois os secretos souberam-me pela vida enquanto ouvia as histórias de vida do Senhor Santos... e o leite creme também não estava nada mal!Após o jantar o pessoal levou-me a conhecer um pouco mais da vida nocturna de Macau. Até aqui tudo bem mas o panorama mudou por completo quando me apercebi que queriam ir para o MGM Grand, hotel-casino inaugurado a 18 de Dezembro de 2007 e onde há um espaço bem agradável para conversar, beber e dançar com música ao vivo todos os fins de semana. É que o MGM é o mais recente concorrente directo do Wynn, não tivesse sido construído mesmo ao lado, e eu como funcionário do Wynn senti um certo peso na consciência por estar a divertir-me na concorrência...

Ao chegar ao local comecei a observar quem frequentava aquele bar. Reparei que 1/3 do espaço estava a ser ocupado pelos estudantes estrangeiros da Universidade de Macau e a viver na Residência East Asia Hall, tal como eu. Bebiam e dançavam, alegres e sem preocupações, nem parecia que estavam em plena época de exames. Por momentos senti saudades dos tempos de estudante universitário... depois lembrei-me que a minha universidade é o Instituto Superior Técnico e que actualmente a minha conta bancária aumenta no fim de cada mês e não é com a mesada dos meus Pais... senti vontade de pegar num chicote e chicotear a mim próprio por ter tido um sentimento tão estúpido.Continuei a observar e reparo que se encontra ao balcão, a pedir mais uma bebida, um Americano que também está trabalhar no Wynn no departamento de gestão. Não fui ter com ele pois estava acompanhado e pareceu-me que iria interromper ou estragar o clima que se estava a criar entre os dois. De qualquer modo, ao vê-lo ali fiquei com um pouco menos de peso na consciência e senti que se alguém ficasse chocado por estar no MGM estando eu a trabalhar no Wynn poderia sempre dizer que não sou o único!

Passado meia hora e sempre a tentar divertir-me de um modo discreto e contido, reparo numa pessoa a chegar ao balcão. Botas à cowboy, calças de ganga, uma camisa e um casaco de ganga preto, alto e com o cabelo extremamente bem penteado e todo puxado para trás, na casa dos 40 anos e com uma aparência tipicamente Britânica. Era Ian Coughlan o presidente do Wynn Macau... Pega na cerveja que acabara de pedir e começa a falar com os restantes estrangeiros que estavam a seu lado, entre os quais o tal Americano do Wynn. À volta deles muitas Chinesas, extremamente bem vestidas e produzidas e sempre a tentar meter conversa e a pedir-lhes que paguem uma bebida... estranho...Começo a pensar "Bem... sendo assim..." e viro-me para o pessoal e digo-lhes bem alto "A próxima rodada é por minha conta!"... e finalmente consegui sentir que a noite de Macau é bem animada!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ai! Senhores...

Há uns dias estava eu a sair do Wynn e a dirigir-me para o Grand Lisboa, onde fica a paragem de autocarros, quando o semáforo para os peões fica vermelho. Em Portugal tentaria atravessar a estrada mesmo com o sinal vermelho mas aqui em Macau nem me atrevo a tal coisa.

Para provar que tenho razão há um Chinês que decide arriscar e começa a atravessar... um carro que se encontrava ainda a uma distância considerável de imediato começa a acelerar, numa tentativa de conseguir atropelar o destemido peão, e a buzinar como que dizendo "Tu deves ser maluco, pá!" ou até mesmo um "Para a próxima não escapas!". O peão lá teve que dar uma corridinha para chegar ao outro lado inteiro.

Enquanto assistia a esta tentativa de assassínio, oiço ao meu lado alguém a exclamar algo que me pareceu "Ai! Senhores..." mas nem liguei muito pensando que era alguma expressão em Cantonês com alguma semelhança ao Português. O sinal dos peões passa a verde e retomo a minha caminhada.Quando estou mesmo a passar à frente da entrada do Grand Lisboa eis que volto a ouvir "Oooooh paaaá! Acho que é só o hotel que está aberto, o casino ainda não abriu!"... desta vez tenho a certeza que foi alguém que falou Português e ainda para mais de um modo nada normal mas antes delicado.

Começo a rodar a cabeça para ver quem está a meu lado e penso para mim "Ou a Caras pagou uma viagem a Macau ao José Castelo Branco e eu não sabia ou então já estou a dominar tão bem o Cantonês que parece que oiço Português!". Assim que acabo de rodar a cabeça, avisto dois homens com os seus 30 e muitos, talvez 40 anos, e vestidos da mesma maneira, calças de ganga justas e uma camisa rosinha mas um rosinha que não tem nada de másculo em comparação com o rosa viril do equipamento alternativo do Benfica. E lá iam os dois, todos contentes, quase a saltitar, a entrar no Grand Lisboa.

Tentei esquecer o que acabara de assistir e dirigi-me para o autocarro pensando "Ai! Senhores..."...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Hábitos

Todas as culturas têm os seus hábitos e por muito que se respeite esses hábitos isso não quer dizer que se tenha que os aceitar ou compreender. Em Macau há certos hábitos que nunca irei aceitar enquanto aqui estiver. Vou enunciá-los por ordem crescente de nojice.

Palitos - Essencial em qualquer mesa de restaurante tal e qual os pauzinhos, os talheres, o sal ou a pimenta. No fim de cada refeição continuam a conversar e entretanto sacam de um palito, com a mão esquerda aberta e todos os dedos esticados e juntos excepto o polegar que fica esticado mas perpendicular aos restantes dedos, encostam a mão esquerda à cara, entre o nariz e o lábio superior, de modo a que a mão direita possa levar o palito a todos os espaços entre os dentes. Para quê esperar pelo fim da conversa e ir à casa de banho fazer isso? Nada disso! Faz-se logo ali no momento para que os outros possam contar quantos pedaços de comida ficaram entalados entre os dentes. É informação preciosa!

Unhacas - Tal como o Português macho que habita na tasca do seu bairro, também o Chinês trabalhador tem a sua estimada unhaca. Com mais de 1cm de comprimento para além do limite razoável, a unhaca encontra-se bem estimada e fortalecida o suficiente para atingir o fundo de qualquer fenda ou pequeno espaço entre dois objectos. A prova de que o trabalhador Chinês é mais aplicado do que o Português é que a unhaca não se encontra apenas no dedo mindinho mas também no polegar para que deste modo se tenha uma pinça improvisada mas eficaz e sempre necessária para qualquer urgência ou imprevisto.

Cuspir - Não há hesitações, se se puxou de uma escarreta bem verdinha e pegajosa, há que expulsá-la o mais rápido possível e nem vale a pena ir à casa de banho ou pegar num lenço de papel. O que mais impressiona são os segundos de silêncio e concentração antes de puxar a escarreta. Fazem uma expressão com a cara e um som que mais parece que estão a tentar arrancar um pedaço da alma.
Não interessa se estão sozinhos ou rodeados de pessoas pois quando a escarreta se encontra na língua, depressa é projectada para o chão mesmo que alguém se encontre à frente. Isso já me aconteceu e senti-me o Sonic a fugir às bolas de fogo atiradas pelo Dr. Robotnik.
A pior foi quando ia no corredor do piso 10 da residência e antes da curva comecei a ouvir os sons... puxou... preparou... ZÁS! já está!... parei e vejo o estudante Chinês a fazer a curva. Assim que ele passa por mim, não houve que hesitar, ponho-me em bicos de pés, começo a dar passadas largas e sempre a olhar para o chão do corredor para evitar pontos brilhantes até chegar ao quarto.
Os caixotes de lixo à volta do Wynn estão divididos, uma metade tem gravilha para depositar as cinzas do tabaco e a outra metade é um buraco para depositar o lixo... eu acho que aquilo serve mais como cesto de basquetebol para os Chineses praticarem a sua pontaria...

Arrotar - O mais comum mas ao mesmo tempo o mais mortífero. Assiste-se ao fenómeno com mais facilidade em qualquer restaurante ou local onde se possa comer. Homem ou mulher, não interessa, e por vezes chega a parecer que a comunicação é feita por arrotos tal é o volume. Se um começa, os outros acabam, quase como uma orquestra. No fim não pedem por aplausos mas a verdade é que também não pedem licença, perdão ou o que quer que seja. Também ocorrem uns segundos de silêncio e concentração antes de o acto que resulta numa expressão facial como se estivessem, desta vez, a expulsar um espírito maligno de dentro de si.
O pior é que isto não acontece apenas à mesa enquanto se come, pode acontecer no sítio menos esperado como me aconteceu quando estava na casa de banho do Wynn, frente a um urinol, prestes a ter aquela sensação de alívio, quando um dos muitos dealers chega ao urinol ao lado do meu e solta um arroto bem sonoro... escusado será dizer que não consegui acabar aquilo que estava prestes a iniciar e passei o resto do dia com a bexiga desregulada.
Mas se acham que é azar apanhar um gajo que arrota no urinol ao lado do nosso no meio de tantos urinóis, imaginem então se estão a jogar futebol de 5 e o gajo da equipa adversária que decide fazer-vos uma marcação homem a homem é provavelmente dos gajos de Macau que mais arrotos dá no espaço de uma hora. Sentia-o a respirar nas minhas costas quando de repente... ZÁS!... sustenho a respiração e começo a correr, a tentar fugir dele e ele a correr atrás de mim a pensar que me estou a desmarcar... nojento, no mínimo nojento!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Estava um bocadinho alto, não estava?

A Universidade de Macau situa-se no cimo de uma pequena montanha na Taipa. Devido a este facto todos os prédios que constituem o Campus Universitário encontram-se desnivelados entre si o que provoca a existência de muitas escadas (entre as quais a famosa com 202 degraus para a sala de computadores) e elevadores. Por isso não é de estranhar que o acesso principal à residência universitária esteja localizado no 9º andar do prédio enquanto o acesso secundário (do lado oposto ao principal) é feito pelo piso 0 do prédio.Um dia estava eu a regressar da Taipa, depois de mais um passeio, e quando começo a aproximar me da entrada principal da residência (9º andar), começo a ouvir uma música e reparo que toda a gente na rua está com a cabeça inclinada para trás, a olhar para o último piso do prédio (21º andar), a tentar perceber de que janela vinha a música. Por momentos pensei que alguma banda Chinesa estava a tentar imitar os U2 e a fazer um vídeo semelhante ao do "Where The Streets Have No Name", gravado no cimo de um prédio. Tentei ouvir com mais atenção a música para perceber de que tipo era mas o som estava tão alto que acabei por não perceber. Ao contrário das outras pessoas que continuavam a tentar identificar a janela do último piso, eu decidi entrar na residência e dirigir-me para o meu quarto que fica no 10º piso.Enquanto subia as escadas apercebi-me que a música fora interrompida bruscamente. A calma voltava à residência. Ao entrar no quarto deparo-me com dois seguranças a falar de um modo muito sério com o Gardete que tinha apenas uma toalha de banho à volta da sua cintura e o tronco ainda por secar. Começo a olhar para o Gardete e não resisto a perguntar-lhe:
- Eras tu que estavas a ouvir a música?
- YA! - diz ele com um sorriso na cara.
- Porra! Pensava que a música vinha do último andar! - o Gardete volta a sorrir... (volto a lembrar que nos encontramos no 10º andar...)
Volto a perguntar-lhe:
- Querias ouvir música enquanto tomavas banho?
- YA! - o sorriso na sua cara não tem maneira de desaparecer...
Volto a olhar para os seguranças e reparo que eles estão com cara de poucos amigos. Numa tentativa de quebrar o gelo digo:
- Estava um bocadinho alto, não estava?
Os seguranças olham para mim e não dizem nada, virando as costas... Nunca tive muito jeito para quebrar o gelo...