terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Revolução

Ao longo do estágio tenho me apercebido que o trabalhador Chinês não é de se queixar muito. Trabalha 8 horas por dia, 6 dias por semana. Tem 12 dias de férias caso trabalhe para um empregador que não pertença ao governo de Macau e desses 12 dias apenas 6 podem passar para o ano seguinte e têm que ser utilizados nos primeiros 6 meses caso contrário perdem o direito a esses dias. É certo que os salários são elevados mas não lhes faz nenhuma confusão estas condições e quando ouvem que na Europa um empregado pode ter mais de 20 dias de férias por ano, abrem muito os olhos com um ar meio surpreendido meio chocado.Durante os almoços na cantina do Wynn, por vezes, tenho o privilégio de ter conversas bastante interessantes com o meu chefe, quando a hora escolhida coincide. Numa dessas conversas ele perguntou-me se estava satisfeito com as condições da residência universitária East Asia Hall. Fui sincero e respondi-lhe que são aceitáveis ainda para mais tendo em conta que não tenho que pagar a minha estadia mas realcei o facto de que uma residência construída há 2 anos podia e devia ter melhores condições do que as que tem apesar de estas serem mais que suficientes. Fiquei a saber depois que o Wynn tem 3 dormitórios para os empregados que vêm da China e outros países estrangeiros mas o meu chefe achou que seria melhor ficar na residência universitária pois nos dormitórios do Wynn um quarto é partilhado por 6 pessoas. Não me contive e exclamei de imediato:
- Um quarto para 6 pessoas?!?!
- Sim - responde ele com muita naturalidade - mas atenção que enquanto 3 pessoas estão de folga as outras 3 estão a fazer o seu turno, por isso acaba por ser 3 pessoas por quarto. Como na residência so tens que partilhar o quarto com mais 1 pessoa, achei que seria melhor para ti.
Nesta altura já nem estava a pensar nas minhas condições, pensava apenas como 6 pessoas se orientam num quarto. Ainda para mais num quarto típico de um dormitório. Disse então:
- Se fosse na Europa, provavelmente os empregados fariam uma manifestação ou entravam em greve para exigir melhores condições nos dormitórios.
O meu chefe começa a rir-se e diz:
- Ah sim! Na Europa por qualquer pequeno motivo começam logo "Greve! Greve! Greve!".
Penso para mim mesmo e acabo por admitir:
- Pois, parece que aqui tem-se mais capacidade de sacrifício do que na Europa...Passado uns dias, entro na cantina para almoçar, começo a preparar o tabuleiro e enquanto ponho o esparguete no prato noto que há uma certa agitação nos empregados inclusive os meus colegas de departamento. Todos trocam um olhar meio indignado, como que à procura de algo, até que começam a falar entre eles com um ar ainda mais indignado! Parece que uma revolução está prestes a rebentar! Começo a pensar se estão assim por lhes ter dito que na Europa tem se direito a mais de 20 dias de férias por ano... devia ter ficado calado... queres ver que mais um bocado vêm ter comigo, enfiam-me uma boina na cabeça, pedem para deixar crescer a barba e começar a gritar "Hasta la victoria siempre!"...
Olho para o Andy que também estava a comentar algo muito agitado com um colega que nem é do departamento de engenharia e quando se cala, aproveito a pausa para lhe perguntar com um certo cuidado o que se passa. Ele responde muito chateado:
- Ainda não reparaste? Não há arroz! Como é que é possível?!?!
Pela primeira vez o arroz tinha acabado na cantina e ainda não tinha sido reposto. Passado uns minutos aparecem dois empregados da cantina, cada um com um grande recipiente de arroz para substituir os que tinham terminado. Assim que abriram as tampas dos recipientes e o arroz ficou à vista, todos os empregados se calaram fazendo uma expressão do tipo "Ah bom!". Os que já se tinham servido com esparguete, como eu, ainda quiseram voltar atrás para se servirem com o arroz mas a fila já estava grande e lá continuaram a servir-se, resignados com o esparguete.Podem não fazer greve e ter uma grande capacidade de sacrifício mas, se for necessário, em condições desumanas sabem como fazer a sua própria revolução!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Como se diz "hospital" em Chinês?

Antes de vir para Macau como qualquer pessoa que vem passar uma temporada longe do seu país fiz um seguro de vida. Mais vale prevenir do que remediar mas a verdade é que é algo que se faz mas que se deseja ao máximo que não seja necessário recorrer. Os exames médicos realizados em Portugal mostraram que o Cigano felizmente se encontra com saúde e tem tudo em ordem em termos de vacinação, por isso vim com a forte convicção que o seguro foi feito apenas para ficar de consciência tranquila.

Foi por isso com alguma estranheza quando me apercebi que ao fim de 3 semanas em Macau tive que ir ao hospital 2 vezes em apenas 3 dias... mas calma pois fui ao hospital mas para ajudar 2 amigos da residência que necessitaram de ir lá... sim porque aqui o Cigano felizmente tem estado bem de saúde apesar de não ter tido oportunidade ultimamente para praticar qualquer tipo de desporto.

Passo a explicar, estava a regressar da Taipa onde tinha ido jantar com o Karl e o Marcel quando o meu telemóvel começa a tocar... era o Gardete... atendo e ele começa a falar num tom muito preocupado que precisa de ir ao hospital e precisa de alguém que explique em Inglês os seus sintomas já que o seu Inglês não é suficiente para explicar esse tipo de situações. Acelero o passo enquanto acabo o meu sundae rapidamente e chego à residência. O Gardete já está à minha espera na entrada, dobrado sobre os joelhos como a contorcer-se com dores... está com fortes dores de barriga e não aguenta mais a dor. Despeço-me do Karl e do Marcel e começo a ir com o Gardete para o Casino Greek Mythology onde há uma praça de táxis. Enquanto esperamos por um táxi aproveito para ir levantar dinheiro.
Quando regresso vejo o Gardete a falar para um taxista, olha para mim meio desorientado e diz-me que ele não sabe Inglês... e agora? Estou em Macau há 3 semanas e ainda não tive tempo para que o meu Chinês atinja a perfeição e saiba como dizer "hospital". Digo ao taxista várias palavras em Inglês, "hospital", "doctor", "medicine", "sick" e o nome do hospital em Português "São Januário"... é escusado, ele olha para nós como o Sr. Dr. Eng. Sócrates a olhar para um projecto de Engenharia civil. Digo então ao Gardete para se voltar a dobrar, agarrar a barriga e gemer de dor... o taxista continua sem perceber... começo a gesticular como se estivesse a usar um estetoscópio e a observar a barriga do Gardete... voilá! O taxista finalmente percebeu! Solta uma palavra qualquer que parto do princípio que é "hospital" e tem a reacção natural de uma pessoa que percebe que há alguém que precisa de ir ao hospital... começa a rir-se sem conseguir parar!

O Gardete senta-se no banco da frente do táxi e eu, enquanto abro a porta para me sentar no banco de trás apercebo-me que o taxista começa a falar com outro taxista que está na fila dos táxis e começa a rir-se também de um modo descontrolado. Já dentro do táxi, o taxista entra ainda a rir-se de um modo bastante divertido. O Gardete aperta o cinto enquanto diz "Digo-te que estou com dores e tenho que ir ao Hospital e começas a rir-te. Tem cá uma graça, meu filho da p%#&!". A viagem até ao hospital foram cerca de 5 minutos (começo a perceber que Macau é mesmo pequeno) mas foi complicada pois tive que fazer um esforço enorme para não me rir com o comentário do Gardete para que ele não pensasse que estava a fazer companhia ao taxista.

Chegados ao hospital vamos ao balcão de recepção, falo com o empregado em Inglês e ele pede para o Gardete preencher os seus dados pessoais e mostrar o passaporte e visto. Diz depois para aguardarmos na sala de espera até que o médico o chame. Passado 5 minutos ouve-se o nome do Gardete nos altifalantes. Entra numa sala pequena, onde esta uma médica sentada. Começa a perguntar o que ele está a sentir. O Gardete vai descrevendo-me como se sente enquanto eu traduzo para Inglês e digo à médica. Ela toma uns apontamentos e manda-nos aguardar de novo na sala de espera.
Enquanto esperamos noto em certas semelhanças entre este hospital e o hospital de São José em Lisboa. Um edifício velho com material antigo. Mais um vestígio da presença Portuguesa em Macau. Ficamos à espera e durante este tempo vamos ouvindo vários nomes Chineses a serem chamados pelos altifalantes. Após cada nome Chinês o Gardete vai soltando um chateado "Fod$%-&*!". Ao fim de uma hora com o Gardete sempre calado e com cara de poucos amigos acabam por o chamar. Já está sem dores após tão longa espera mas quer ir na mesma e dizer que ainda está com dores. Faço mais uma vez de tradutor. A médica diz-lhe que não é nada de grave e chama-lhe a atenção para os horários das refeições visto que o Gardete por vezes não almoça e janta por volta da meia noite. Se ela soubesse os temperos e ao que cheira a comida africana que o Gardete cozinha no quarto, que por vezes me acorda quando ele janta depois da meia noite, talvez ela fizesse um exame profundo ao seu estômago para confirmar que ele ainda tem estômago. Apesar de tudo ainda lhe receitou uns comprimidos.
No próprio hospital existe uma espécie de pequena farmácia onde o Gardete pode obter de imediato os seu comprimidos. O custo desta urgência com comprimidos incluídos foi cerca de 4 euros. Acabou por ficar mais cara a deslocação de táxi do que o serviço prestado no hospital. Voltamos para o quarto já passa da 1h da manhã. O Gardete de imediato toma os comprimidos na esperança de não voltar a ter aquelas fortes dores. Deito-me a tentar não pensar no comentário do Gardete dentro do táxi para não me começar a rir sozinho...

Passado dois dias, após o jantar fui ao quarto do Marcel e do Karl para trocar umas fotos do Grande Prémio de Macau com o Marcel. Chego ao quarto e o Karl está com o Skype ligado, com um ar preocupado e à espera que o atendem. Está a telefonar para o número de assistência médica da Suécia. Passado uns minutos começa a falar em Sueco com uma médica e a descrever-lhe como se está a sentir. Tem uma dor na zona à volta do coração e o seu braço esquerdo está dormente. A médica diz-lhe que tendo em conta a zona afectada o melhor é dirigir-se ao hospital para ter a certeza que está tudo bem.

O Karl ao desligar o Skype de imediato me pergunta onde fica o Hospital e o que é necessário para ser atendido nas urgências. Explico-lhe detalhadamente quais os procedimentos que realizei quando há dois dias atrás tinha ido lá com o Gardete. Acabada a explicação o Karl fica a olhar para mim calado... digo-lhe "OK, vamos andando!". Enquanto nos dirigimos para o táxi perto do Casino Greek Mythology. Explico-lhe que se o taxista não souber falar Inglês temos que representar um pouco para ele perceber que temos que ir ao hospital para ser visto por um médico.
Chegados ao táxi tentamos falar com o taxista em Inglês... não sabe Inglês... quando vou a dizer para o Karl esboçar um gesto de dor enquanto eu faço de médico, o Karl inicia uma representação que quase me faz lembrar a morte da personagem do Willem Dafoe no filme "Platoon - Os Bravos do Pelotão". Surpreendido com a actuação digna de um Oscar, o taxista rapidamente percebe que queremos ir ao hospital. Desta vez o taxista não se riu pois o teatro foi muito sério e não uma comédia como aquela que eu e o Gardete representámos há dois dias atrás.

Após os mesmo procedimentos, o Karl é visto pela médica que lhe diz para esperar. O Karl não soltou palavrões enquanto diziam nomes Chineses ao altifalante durante uma hora e meia até porque para perceber um Chinês a dizer Kallen Rydberg exige uma concentração máxima. Durante esse tempo tentei falar com ele para ver se o distraia e não stressava mais com aquela dor incomodativa e preocupante. Falamos de tudo um pouco. Desde Macau, passando pela Europa, os estudos de cada um, as políticas da Suécia e Portugal, a hora e meia acabou por passar sem se dar por isso. O método do hospital é bastante eficaz pois após esperas de hora e hora e meia qualquer dor desde que não seja totalmente grave acaba por passar. Contudo o Karl lá foi para explicar o que estava a sentir ou, nesta altura, tinha sentido.

Nada de grave, possivelmente uma problema muscular naquela zona causada pelo peso da mochila que carregou enquanto visitou Pequim uns dias atrás. Mais uns comprimidos receitados. Cerca de 5 euros pelo serviço de urgência prestado. Mais uma vez o táxi vai ficar mais caro que o tratamento em si. Mais uma vez chego ao quarto depois da 1h da manhã, tendo que me levantar no dia seguinte às 7h30 da manha. Já conheço melhor o hospital de Macau do que certos pontos de atracção turística de Macau.

Não posso deixar de referir o pormenor mais curioso e que marca a diferença entre um hospital Português e o hospital São Januário de Macau. Ao entrarmos no hospital é nos fornecido uma máscara daquelas habitualmente utilizadas pelos médicos e enfermeiros para diminuir ao máximo o perigo de contágio entre os pacientes. É uma prevenção que faz todo o sentido mas ao mesmo tempo faz nos sentir que podemos estar numa situação mais preocupante do que na realidade é. Para terem uma ideia do aspecto que se tem com aquela máscara na cara, vou fazer algo que não pretendia fazer neste blog que é mostrar parte do meu belo rosto. Aqui vai uma foto para terem uma noção.
Óbvio que sendo noite e estando dentro de um edifício, não levei comigo o chapéu e os óculos de sol mas se soubesse que combinavam tão bem com a máscara talvez tivesse pensado duas vezes antes ir para o hospital.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Algo me diz que é melhor não...

Graças ao Ano Novo Chinês tive direito a 3 dias de férias que na realidade foram 4 pois foram juntos ao dia de folga semanal. Foram dias que souberam muito bem pois houve tempo e possibilidade para sair à noite, encontrar com amigos para almoçar ou jantar e visitar Macau ao mesmo tempo que se ia observando o modo de festejar a chegada do Ano do Rato. Num desses dias visitei finalmente aquele que deve ser o ponto de atracção turístico principal de Macau, as Ruínas de São Paulo.
É sem dúvida curioso como tendo sobrado apenas a fachada principal desta antiga igreja o seu estado de conservação contudo é quase perfeito. Um monumento bem bonito que nada fica a dever a outros situados na velha Europa. Custa a acreditar que algo assim esteja situado numa pequena e estreita rua paralela à avenida principal que tem origem no largo do Senado. Infelizmente não era o único que me encontrava em férias e como tal havia centenas de turistas, essencialmente vindos da China e que fizeram uma pausa no casino onde estavam a jogar para poder visitar um pouco de Macau, o que dificultava bastante a circulação para melhor apreciar a vista.
Sendo já final de tarde e com o estômago a exigir um lanche para repor energias após todas aquelas caminhadas ao longo de Macau, achei que seria uma boa ocasião para experimentar o famoso "jiu pa bau". O "jiu pa bau" (eu podia escrever em Chinês mas não me quero exibir e assim é mais fácil para aqueles que não sabem ler Chinês perceber o modo como soa a palavra) e um típico snack de Macau e que consiste num bife de porco frito, por vezes acompanhado com um pouco de cebola também ela frita e servida dentro de um pão. Como já devem ter percebido é uma simples bifana e é mais uma das influências deixadas pelo povo Português. Sorte a minha quando reparei que nessa mesma rua estreita onde se situam as Ruínas de São Paulo existe uma loja que vende apenas "jiu pa bau".
Aproximei-me para ver o aspecto da loja e os preços que praticava. Foi então que voltei a olhar com mais atenção para o símbolo da loja e fui repentinamente atacado por uma estranha sensação... Não sei se lhe hei-de chamar instinto, sexto sentido, feeling, intuição... chamem-lhe o que quiser mas só conseguia pensar "Algo me diz que é melhor não..." e decidi afastar-me aos poucos e esperar até à hora de jantar para ir a um dos restaurantes que costumo frequentar e que tem apenas placas com o seu nome e nada de símbolos a causar estranhas sensações...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Kung Hei Fat Choi!

É esta a frase mais ouvida desde 7 de Fevereiro de 2008 ou, segundo o calendário lunar Chinês, 1 de Janeiro do ano do Rato. Ao dizer isto a alguém significa que lhe estou a desejar saúde para o novo ano. O calendário lunar Chinês tem algumas diferenças em relação ao calendário ocidental. Apesar de também ter 12 meses, cada mês tem sempre 30 dias e no dia 1 é sempre lua nova enquanto no dia 15 é lua cheia. A Primavera começa por altura do ano novo e devido a isso é associada uma mudança do tempo durante a passagem de ano. Para que o calendário Chinês não fique muito desfasado do calendário Ocidental, a cada 4 anos o ano Chinês tem 13 meses sendo que o mês repetido é Julho. Um Chinês festeja o seu aniversário duas vezes, na data de acordo com o calendário Ocidental e que é habitualmente festejado entre amigos e na data de acordo com o calendário Oriental e habitualmente festejado com a família. Os anos não são contados em números mas pelos 12 zodíacos Chineses que são, por ordem crescente, o Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco. O Chinês tem o seu zodíaco sempre determinado pelo ano em que nasceu.Passámos do ano do Porco para o ano do Rato e podemos dizer que a venda de produtos com a imagem do rato Mickey disparou consideravelmente nos últimos tempos. No McDonald's andam a vender umas batatas fritas especiais, enroladas e com um sabor ligeiramente diferente que vem numa caixinha com a cara de um rato desenhada. As crianças andam vestidas como ratos como se estivéssemos em pleno Carnaval. Nesta altura o melhor mesmo é deixar de parte a imagem que temos de um rato num esgoto ou num armazém e vê-lo como aquela criatura adorável retratada no Ratatouille e que até lavava as mãos... ajuda a superar o momento!Pela primeira vez tive que esperar apenas 37 dias desde a última passagem de ano para voltar a festejar a chegada de um novo ano o que é bem mais engraçado em vez de ter que esperar aqueles longos 365 ou 366 dias. E depois não se tem tanto aquela sensação de envelhecer pois entrei no ano do Rato e não no ano de 2008 que faz lembrar que já faz quase 27 anos que vim ao Mundo. Nesta passagem não houve contagem decrescente acompanhado de champanhe e passas nas últimas badaladas do dia 6 de Fevereiro mas em compensação já faz uns dias que tenho tido problemas para adormecer devido ao fogo-de-artifício que se inicia às 19h e termina por volta da 1h da manhã. Mas não tenho com que me preocupar, dizem que vai ser assim ao longo da próxima semana... Como seria muito caro pagar a empresas profissionais do ramo do fogo-de-artifício para lançarem o fogo durante uma semana e cerca de 6 horas por dia recorrem a um método muito simples. Preparam terrenos próprios com barracas que vendem todo o tipo de produtos pirotécnicos e com zonas para os fazer explodir. Assim qualquer pessoa pode ir a esse terreno, comprar o tipo de fogo-de-artifício que mais lhe agrada e lançá-lo! É extremamente perigoso mas sai mais barato e no poupar está o ganho! A insistência durante estes dias com o fogo-de-artifício é devida a uma antiga lenda sobre um monstro que atacava as populações e apenas foi afugentado usando o fogo-de-artifício como arma. Assim tem-se a certeza que o monstro não se vai por com ideias só porque entramos num novo ano.A parte mais agradável do Ano Novo Chinês é sem dúvida as ofertas de Lai Si! Os Lai Si são pequenos envelopes vermelhos muito bem decorados e com algumas palavras Chinesas que habitualmente significam "fortuna" ou "saúde". São oferecidos pelas pessoas já casadas às pessoas solteiras e no seu interior vem habitualmente cerca de 20 Patacas embora quando a oferta é feita entre familiares possa atingir valores consideravelmente elevados. Eu até ao momento já recebi 9 Lai Si e tendo em conta o preço a que se consegue ter uma refeição num restaurante aqui em Macau podemos dizer que vou ter jantares oferecidos pelo menos nos próximos 5 dias. Fantástico! E não me posso esquecer dos 5 jantares de fim de ano de diferentes departamentos do Wynn em que a conta foi paga pelo director do respectivo departamento. Eu até pagava mas já que insistem... Eu posso estar a passear nas ruas de Macau e caso me apeteça petiscar algo, basta procurar um casal, ver se tem aliança de casamento e soltar um feliz "Kung Hei Fat Choi!" que eles terão que me oferecer um Lai Si e assim poderei ir a uma pastelaria comprar um pastel de nata (Portuguese egg tart como eles chamam aqui) ou ao McDonald's comer um sundae para enganar a larica.O Ano Novo Chinês é uma espécie de Natal e passagem de ano num só como o mais banal dos champôs com amaciador, o chamado 2 em 1. Semanas antes todas as ruas ficam decoradas com iluminação, bandeiras, bonecos e cartazes com referências ao Ano Novo e as pessoas iniciam as suas compras de modo a que possam utilizar algo novo nos primeiros dias do Ano Novo. As ruas do centro de Macau onde se encontram todas as lojas parecem os corredores do Colombo na véspera do 25 de Dezembro. Eu próprio, que aproveitei essa tradição para comprar uns All Star que há tanto tempo procurava e que aqui em Macau encontrei originais e a um preço quase idêntico caso tivesse comprado uns falsos na feira de Carcavelos, vi-me impedido de entrar em certas lojas simplesmente porque não cabia lá mais ninguém. A tradição diz que se deve utilizar tudo novo nos primeiros dias para que se tenha um novo início em todos os aspectos mas caso não seja possível então que seja pelo menos uns novos sapatos e calças. Os sapatos novos servem para pisar todas as pessoas que nos desejam mal mas atenção que os sapatos tem que ser comprados antes do primeiro dia do Ano Novo pois em Chinês a palavra "sapatos" soa a "ai" e devido a este pormenor nunca se compram no primeiro mês pois é como estar a comprar um suspiro de desânimo e tristeza para o resto do ano! "Calças" dito em Chinês tem uma entoação muito semelhante à palavra "rico" e como tal umas calças novas poderão trazer alguma riqueza para o ano que se avizinha!A decoração é tipicamente Chinesa mas sobressai bastante as pequenas árvores com pequenas laranjas e os Lai Si pendurados tal e qual a decoração de uma árvore de Natal. As pequenas laranjas são utilizadas também devido a uma questão de entoação pois em Chinês a palavra "laranja" tem um som semelhante à palavra "próspero". É óbvio que todas estas tradições podem não valer de muito pois os Chineses também têm o hábito de vir a Macau nos primeiros dias do Ano Novo para jogar nos casinos na esperança que o novo ano traga sorte ao jogo mas , como devem imaginar, a roleta, as cartas e as slot machines não possuem qualquer tipo de relógio e o seu comportamento é o mesmo dos restantes anos passados fazendo com que muita gente fique sem dinheiro para colocar nos Lai Si...Proponho que a cultura Ocidental adopte algumas das tradições do Ano Novo Chinês... especialmente a parte dos 3 dias de feriado e os Lai Si... por falar em Lai Si, tenho que ir à rua à procura de um casal que está quase na hora do jantar...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Para evitar confusões...

O meu cabelo neste momento encontra-se com um comprimento considerável e não sei se será possível cortá-lo apenas quando regressar a Portugal. Apesar de muitas vezes apresentar um ar desleixado, tão característico dos ciganos, o cabelo sempre foi uma preocupação. Não querendo recorrer aos "milagres" da cirurgia estética, o cabelo é a única coisa que se pode alterar e cuidar para obter a imagem que mais nos agrada. Isso não é nada fácil considerando a quantidade de remoinhos e outros feitios que o meu cabelo apresenta e que faz com que tenha uma poupa peculiar (para não usar outra palavra mais depreciativa) ao longo de todos estes anos de vida.

Estou com uma preocupação evidente tendo em conta que o meu Cantonês, apesar de roçar a perfeição, não é ainda suficiente para explicar detalhadamente a um cabeleireiro Chinês o que pretendo ao cortar o cabelo. Não consigo arranjar maneira de lhe dizer para ter cuidado quando cortar o cabelo atrás porque tenho dois remoinhos juntos que levantam o cabelo e como tal não pode ser cortado à máquina mas sim à tesoura de modo a ficar com um comprimento suficiente que possa disfarçar. Outro factor que me deixa também bastante apreensivo são os variados cortes de cabelo que os Chineses utilizam. Não sei se é moda ou não mas uma coisa é certa... não gosto e não desejo trocar a minha mítica poupa por esses tipos de penteados.

Em Macau aprende-se com o passar do tempo a superar o obstáculo da linguagem embora volte a realçar que o meu Cantonês praticamente roça a perfeição. Quando a comunicação não pode ser feita com o mesmo tipo de sons, os gestos valem muito e uma imagem pode valer ouro! Decidi então que caso seja mesmo necessário cortar o cabelo aqui em Macau irei recorrer a imagens para expressar da melhor maneira aquilo que definitivamente não pretendo e aquilo que gostaria ou pelo menos não me importaria de obter. Esperemos que resulte para não desiludir todos os fãs da minha poupa...