Antes de vir para Macau como qualquer pessoa que vem passar uma temporada longe do seu país fiz um seguro de vida. Mais vale prevenir do que remediar mas a verdade é que é algo que se faz mas que se deseja ao máximo que não seja necessário recorrer. Os exames médicos realizados em Portugal mostraram que o Cigano felizmente se encontra com saúde e tem tudo em ordem em termos de vacinação, por isso vim com a forte convicção que o seguro foi feito apenas para ficar de consciência tranquila.
Foi por isso com alguma estranheza quando me apercebi que ao fim de 3 semanas em Macau tive que ir ao hospital 2 vezes em apenas 3 dias... mas calma pois fui ao hospital mas para ajudar 2 amigos da residência que necessitaram de ir lá... sim porque aqui o Cigano felizmente tem estado bem de saúde apesar de não ter tido oportunidade ultimamente para praticar qualquer tipo de desporto.
Passo a explicar, estava a regressar da Taipa onde tinha ido jantar com o Karl e o Marcel quando o meu telemóvel começa a tocar... era o Gardete... atendo e ele começa a falar num tom muito preocupado que precisa de ir ao hospital e precisa de alguém que explique em Inglês os seus sintomas já que o seu Inglês não é suficiente para explicar esse tipo de situações. Acelero o passo enquanto acabo o meu sundae rapidamente e chego à residência. O Gardete já está à minha espera na entrada, dobrado sobre os joelhos como a contorcer-se com dores... está com fortes dores de barriga e não aguenta mais a dor. Despeço-me do Karl e do Marcel e começo a ir com o Gardete para o Casino Greek Mythology onde há uma praça de táxis. Enquanto esperamos por um táxi aproveito para ir levantar dinheiro.

Quando regresso vejo o Gardete a falar para um taxista, olha para mim meio desorientado e diz-me que ele não sabe Inglês... e agora? Estou em Macau há 3 semanas e ainda não tive tempo para que o meu Chinês atinja a perfeição e saiba como dizer "hospital". Digo ao taxista várias palavras em Inglês, "hospital", "doctor", "medicine", "sick" e o nome do hospital em Português "São Januário"... é escusado, ele olha para nós como o Sr. Dr. Eng. Sócrates a olhar para um projecto de Engenharia civil. Digo então ao Gardete para se voltar a dobrar, agarrar a barriga e gemer de dor... o taxista continua sem perceber... começo a gesticular como se estivesse a usar um estetoscópio e a observar a barriga do Gardete... voilá! O taxista finalmente percebeu! Solta uma palavra qualquer que parto do princípio que é "hospital" e tem a reacção natural de uma pessoa que percebe que há alguém que precisa de ir ao hospital... começa a rir-se sem conseguir parar!
O Gardete senta-se no banco da frente do táxi e eu, enquanto abro a porta para me sentar no banco de trás apercebo-me que o taxista começa a falar com outro taxista que está na fila dos táxis e começa a rir-se também de um modo descontrolado. Já dentro do táxi, o taxista entra ainda a rir-se de um modo bastante divertido. O Gardete aperta o cinto enquanto diz "Digo-te que estou com dores e tenho que ir ao Hospital e começas a rir-te. Tem cá uma graça, meu filho da p%#&!". A viagem até ao hospital foram cerca de 5 minutos (começo a perceber que Macau é mesmo pequeno) mas foi complicada pois tive que fazer um esforço enorme para não me rir com o comentário do Gardete para que ele não pensasse que estava a fazer companhia ao taxista.
Chegados ao hospital vamos ao balcão de recepção, falo com o empregado em Inglês e ele pede para o Gardete preencher os seus dados pessoais e mostrar o passaporte e visto. Diz depois para aguardarmos na sala de espera até que o médico o chame. Passado 5 minutos ouve-se o nome do Gardete nos altifalantes. Entra numa sala pequena, onde esta uma médica sentada. Começa a perguntar o que ele está a sentir. O Gardete vai descrevendo-me como se sente enquanto eu traduzo para Inglês e digo à médica. Ela toma uns apontamentos e manda-nos aguardar de novo na sala de espera.

Enquanto esperamos noto em certas semelhanças entre este hospital e o hospital de São José em Lisboa. Um edifício velho com material antigo. Mais um vestígio da presença Portuguesa em Macau. Ficamos à espera e durante este tempo vamos ouvindo vários nomes Chineses a serem chamados pelos altifalantes. Após cada nome Chinês o Gardete vai soltando um chateado "Fod$%-&*!". Ao fim de uma hora com o Gardete sempre calado e com cara de poucos amigos acabam por o chamar. Já está sem dores após tão longa espera mas quer ir na mesma e dizer que ainda está com dores. Faço mais uma vez de tradutor. A médica diz-lhe que não é nada de grave e chama-lhe a atenção para os horários das refeições visto que o Gardete por vezes não almoça e janta por volta da meia noite. Se ela soubesse os temperos e ao que cheira a comida africana que o Gardete cozinha no quarto, que por vezes me acorda quando ele janta depois da meia noite, talvez ela fizesse um exame profundo ao seu estômago para confirmar que ele ainda tem estômago. Apesar de tudo ainda lhe receitou uns comprimidos.
No próprio hospital existe uma espécie de pequena farmácia onde o Gardete pode obter de imediato os seu comprimidos. O custo desta urgência com comprimidos incluídos foi cerca de 4 euros. Acabou por ficar mais cara a deslocação de táxi do que o serviço prestado no hospital. Voltamos para o quarto já passa da 1h da manhã. O Gardete de imediato toma os comprimidos na esperança de não voltar a ter aquelas fortes dores. Deito-me a tentar não pensar no comentário do Gardete dentro do táxi para não me começar a rir sozinho...
Passado dois dias, após o jantar fui ao quarto do Marcel e do Karl para trocar umas fotos do Grande Prémio de Macau com o Marcel. Chego ao quarto e o Karl está com o Skype ligado, com um ar preocupado e à espera que o atendem. Está a telefonar para o número de assistência médica da Suécia. Passado uns minutos começa a falar em Sueco com uma médica e a descrever-lhe como se está a sentir. Tem uma dor na zona à volta do coração e o seu braço esquerdo está dormente. A médica diz-lhe que tendo em conta a zona afectada o melhor é dirigir-se ao hospital para ter a certeza que está tudo bem.
O Karl ao desligar o Skype de imediato me pergunta onde fica o Hospital e o que é necessário para ser atendido nas urgências. Explico-lhe detalhadamente quais os procedimentos que realizei quando há dois dias atrás tinha ido lá com o Gardete. Acabada a explicação o Karl fica a olhar para mim calado... digo-lhe "OK, vamos andando!". Enquanto nos dirigimos para o táxi perto do Casino Greek Mythology. Explico-lhe que se o taxista não souber falar Inglês temos que representar um pouco para ele perceber que temos que ir ao hospital para ser visto por um médico.

Chegados ao táxi tentamos falar com o taxista em Inglês... não sabe Inglês... quando vou a dizer para o Karl esboçar um gesto de dor enquanto eu faço de médico, o Karl inicia uma representação que quase me faz lembrar a morte da personagem do Willem Dafoe no filme "Platoon - Os Bravos do Pelotão". Surpreendido com a actuação digna de um Oscar, o taxista rapidamente percebe que queremos ir ao hospital. Desta vez o taxista não se riu pois o teatro foi muito sério e não uma comédia como aquela que eu e o Gardete representámos há dois dias atrás.
Após os mesmo procedimentos, o Karl é visto pela médica que lhe diz para esperar. O Karl não soltou palavrões enquanto diziam nomes Chineses ao altifalante durante uma hora e meia até porque para perceber um Chinês a dizer Kallen Rydberg exige uma concentração máxima. Durante esse tempo tentei falar com ele para ver se o distraia e não stressava mais com aquela dor incomodativa e preocupante. Falamos de tudo um pouco. Desde Macau, passando pela Europa, os estudos de cada um, as políticas da Suécia e Portugal, a hora e meia acabou por passar sem se dar por isso. O método do hospital é bastante eficaz pois após esperas de hora e hora e meia qualquer dor desde que não seja totalmente grave acaba por passar. Contudo o Karl lá foi para explicar o que estava a sentir ou, nesta altura, tinha sentido.
Nada de grave, possivelmente uma problema muscular naquela zona causada pelo peso da mochila que carregou enquanto visitou Pequim uns dias atrás. Mais uns comprimidos receitados. Cerca de 5 euros pelo serviço de urgência prestado. Mais uma vez o táxi vai ficar mais caro que o tratamento em si. Mais uma vez chego ao quarto depois da 1h da manhã, tendo que me levantar no dia seguinte às 7h30 da manha. Já conheço melhor o hospital de Macau do que certos pontos de atracção turística de Macau.
Não posso deixar de referir o pormenor mais curioso e que marca a diferença entre um hospital Português e o hospital São Januário de Macau. Ao entrarmos no hospital é nos fornecido uma máscara daquelas habitualmente utilizadas pelos médicos e enfermeiros para diminuir ao máximo o perigo de contágio entre os pacientes. É uma prevenção que faz todo o sentido mas ao mesmo tempo faz nos sentir que podemos estar numa situação mais preocupante do que na realidade é. Para terem uma ideia do aspecto que se tem com aquela máscara na cara, vou fazer algo que não pretendia fazer neste blog que é mostrar parte do meu belo rosto. Aqui vai uma foto para terem uma noção.

Óbvio que sendo noite e estando dentro de um edifício, não levei comigo o chapéu e os óculos de sol mas se soubesse que combinavam tão bem com a máscara talvez tivesse pensado duas vezes antes ir para o hospital.