quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Grand Prix Macau

Todos os anos, em meados de Novembro, realiza-se um dos mais importantes e famosos eventos de Macau, o Grande Prémio. Tive o privilégio de assistir ao que podemos denominar como o GP do Mónaco Asiático. Tal como no GP do Mónaco as ruas da cidade transformam-se para formar o circuito que vários tipos de carros e motas percorrerão a altas velocidades. Os preparativos iniciam-se cerca de um mês antes e dão outra animação ao local. A confusão aumenta mas também traz benefícios pois todos os anos renovam as estradas.

O evento dura 4 dias, de 5f a Domingo, e nesses dias nota-se claramente um aumento do número de visitantes, especialmente vindos da Europa e da América do Norte ostentando roupas com símbolos de marcas de automóveis. Os autocarros nesses 4 dias são gratuitos o que faz com que apanhar um autocarro seja uma autêntica aventura ou mesmo uma missão impossível e não apenas nas horas de ponta mas ao longo do dia, daí ter chegado atrasado alguns minutos ao trabalho nesses dias pois os autocarros estão tão cheios que nem se deslocam até certas paragens.Tendo apenas o domingo como único dia de folga ficou logo fora de questão assistir aos treinos durante a 5f e 6f e à 41ª Edição do GP de Motos de Macau no Sábado. Contudo, Domingo é o grande dia pois realiza-se a Corrida da Guia de Macau do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo durante a manhã e o GP de Macau de Fórmula 3 durante a tarde intervalados por outros pequenos eventos. Não assisti aos primeiros 3 dias mas não deixou de ser engraçado pela manhã estar a tomar banho ou a caminho do trabalho e ouvir o som das acelerações das motas e dos carros (consegue-se ouvir perfeitamente o roncar dos motores na Taipa).Fui ao GP na companhia do Karl e do Marcel. Tal como eu nunca tinham assistido a tal evento, quer em Macau quer nos seus países, Suécia e Suíça. A organização do evento é boa ao ponto de termos comprado bilhetes de estudantes (os mais baratos) para a bancada B, que só tem lugares em pé, e acabarmos por ficar confortavelmente sentados na bancada A. Apenas durante a corrida dos carros de turismo é que me apercebi que um dos participantes era o nosso conhecido Português Tiago Monteiro. As reacções de cada um de nós foram algo diferentes, enquanto eu e o Karl vibrávamos a cada passagem dos carros com aquela sensação real de alta velocidade, tentativas de ultrapassagens e razias entre carros e railes de protecção, o Marcel ao fim das primeiras 3 voltas, pegou na câmara e foi dar uma volta a ver se tirava fotos às meninas do GP.Acabei a corrida a torcer intensamente para que o Tiago Monteiro chegasse ao 3º lugar e conseguisse o pódio mas nada feito... Após comermos umas sandes e bebidas à borla (gentilmente cedidas pelo Arnau que estava a trabalhar num stand de comes e bebes) que serviram de almoço, tivemos mais uma prova da boa organização e acabámos por nos sentar na Grande bancada que fica mesmo à frente do ponto de partida do circuito e cujos bilhetes devem ser o triplo do preço dos bilhetes de estudantes. A Fórmula 3 foi ainda mais impressionante devido à potência dos motores. A cada passagem era ver toda a gente a tapar os ouvidos e a rodar as cabeças várias vezes. O Marcel mais uma vez só aguentou 3 voltas... Durante estas duas corridas, reparei que enquanto esperava que os carros passassem de novo, por vezes, havia uma certa agitação nas bancadas e comentários entre as pessoas. Eu e o Karl bem que olhávamos para todos os lados a ver se havia alguma escaramuça ou se a namorada do Tiago Monteiro estava nas bancadas mas a verdade é que não se passava nada... até que depois acabámos por perceber... toda a agitação era quando no ecrã gigante, que transmitia a corrida em directo, ocorria um acidente, algo que é bastante frequente neste circuito por ser de pequenas dimensões. Os Chineses vão ao GP mas não é para sentir altas velocidades, nada disso... vão lá para ver acidentes! Foi então que percebi porque é que a bancada Lisboa, que fica entre o Wynn e o Hotel Lisboa, é ainda mais cara do que a bancada VIP... é que na curva Lisboa é onde ocorrem todos os acidentes e é isso que o povo Chinês quer... carroçaria amolgada e fumo a sair dos motores... e pagam bem para ver isso...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Vem orientar para seres enganado

Esta semana estou a participar na orientação dos novos alunos estrangeiros da Universidade de Macau. Tendo em conta que estou em Macau há mais de 2 meses e meio e já sou considerado um "veterano", a associação que me proporcionou o estágio pediu-me para participar nos jantares de modo a poder conhecer os novos habitantes da residência e ajudá-los a adaptarem-se o mais depressa possível a este país tão especial. Tem sido engraçado conhecer pessoas dos mais variados países (França, Espanha, Brasil, USA, Holanda, Colômbia, Alemanha, Suécia, sem contar com os que ainda não conheci...) e ajudá-los com as mesmas dúvidas que tive nos primeiros dias que passei em Macau.

O programa da orientação inclui, todos os dias, jantares em restaurantes de cozinhas diferentes. O primeiro jantar, na segunda feira, foi num restaurante de comida Chinesa. Fui com vontade de mostrar ao pessoal que a comida Chinesa é bastante boa se se souber escolher os pratos certos e como tal não havia motivos para preocupação. As organizadoras da orientação levaram-nos até um restaurante perto do centro de Macau. Ao entrar não estranhei muito o interior do restaurante pois era semelhante a outros dois onde tinha estado com o pessoal do trabalho. Quando estávamos todos sentados nas várias mesas à espera da comida as organizadoras pediram a todos para se levantarem e irem à rua ver a preparação do jantar. Estranhei e foi então que comecei a perceber que aquele tipo de restaurante Chinês não era bem igual aos que já tinha frequentado.

À entrada do restaurante havia uma espécie de cozinha exterior onde se encontravam várias pessoas a preparar a comida com alguns baldes à volta deles. Ao aproximar-me reparo que um dos baldes tem água com cobras lá dentro. Um dos "cozinheiros" tira uma cobra do balde, pega numa tesoura, espera que a cobra pare de mexer e com a tesoura arranca a cabeça da cobra. O corpo da cobra continua a mexer-se de um modo muito agitado mas já não há nada a fazer... a cabeça está no chão e não me parece que se consiga voltar a juntar nem com super-cola 3. De seguida e sempre com a tesoura, começa a fazer um corte ao longo de 1 metro de comprimento do corpo da cobra para poder arrancar a pele e retirar os intestinos. E está pronta a ir para o lume!Ao lado dos baldes encontrava-se também uma gaiola. Olhei e vi um grande amontoado de rãs. Outro "cozinheiro" abre a porta da gaiola e agarra numa das rãs. Coloca-a numa mesa, pega numa faca de talho, faz pontaria e vejo a cabeça da rã a voar até parar no chão perto dos pés de uma das estudantes que ficou com um ar ainda mais enjoado do que já estava... O "cozinheiro" depois limita-se a apertar o corpo da rã de modo a que os intestinos saiam pelo interior do pescoço que ficou à vista de todos depois daquela facada precisa. Retiram depois a pele, cortam o resto do corpo em vários pedaços como se de um frango se tratasse e está pronta a ir para o lume!
Mandaram-nos de volta para dentro do restaurante, para nos sentarmos e começarmos a comer. Veio uma travessa de arroz, umas espécies de camarões, carne de porco agridoce, noodles (ou chao min como chamam em Portugal) com tiras de carne de vaca e alguns vegetais cozidos a servir de salada. Nada daquilo me era estranho e como tal atirei-me ao porco agridoce que é simplesmente delicioso. Entretanto metem na mesa um prato com vários pedaços de carne mas apesar das inúmeras perguntas as orientadoras não nos respondiam. Pego num dos pedaços e começo a comer. A carne não tinha muito sabor e ao mastigar mais parecia pastilha elástica e tinha uma pequena cartilagem no centro que não dava para comer. Após todos (ou quase todos) provarem acabam por nos dizer que são línguas de pato. Sinceramente, prefiro a língua de vaca ou borrego.

Passado uns minutos uma das orientadoras traz um prato numa mão mas bem alto, sem nos deixar ver o que está lá dentro, e uma colher na outra mão e começa a distribuir um pedaço da comida que está no prato a cada um de nós sem dizer o que é. O sabor até é agradável e come-se bem. Perguntamos o que é. A orientadora pega numa taça e tira de lá uma minhoca viva com cerca de 10 a 15 cm de comprimento e 2 cm de grossura e mete-a no meio da mesa. Alguns levaram a mão à boca, eu fiquei a olhar para a minhoca a pensar "então é a isto que tu sabes... está giro!".

Próximo prato surpresa é posto em cima da mesa à vista de todos. Parece pedaços de pescada frita. Começamos a comer. A carne é muito fina e encontra-se muito perto das supostas espinhas. É agradável mas não muito saboroso. A orientadora pergunta-nos se gostamos da cobra... não estava mal... podia ser mais gorduchinha...

Mais um prato na mesa. Este não dá para enganar, pelo formato dos pedaços são as pernas de rã. Uma carne branca e brilhante a rodear um pequeno osso. Pego numa e começo a comer como se fosse uma pequena perna de frango assado. Delicioso! Volto a repetir mais umas vezes. Um autêntico petisco!

A orientador chega com outro prato e mostra-nos algo que parece uma tarte feita à base de ovos. Com uma colher tira pedaços e começa a dar de comer a cada um. Já nem perguntamos o que é antes de toda a gente provar o prato. Não tem um sabor muito agradável e é seco. A orientadora coloca a tarde no meio da mesa e começamos a olhar para o interior da tarte. Reparamos que há algumas lagartas no meio da tarte. Dou um golo mais prolongado na minha Tsingtao para tirar aquele sabor das goelas e não volto a repetir. Prefiro a tarte com fiambre e queijo ou com cogumelos...

Último prato. Bem lá no alto para ninguém ver. A orientadora pede-nos para fecharmos os olhos e abrirmos a boca. Com a colher deixa cair um pequeno pedaço para dentro da boca de cada um. Assim que cada um mastiga pela primeira vez temos todo o tipo de reacções. Uns começam a cuspir para o prato, outros engolem de imediato e atiram-se à Tsingtao como se tivessem passado vários dias num deserto. Um dos estudantes pergunta se alguém quer pastilhas Fresh Air. Acabaram em 5 segundos. Perguntamos o que é. A orientadora coloca o prato no centro da mesa e diz-nos que é o ovo dos insectos, ou por outras palavras, larvas.Acabo o jantar a pensar para mim mesmo que vim com a intenção de orientar o pessoal mas acabei por ser bem enganado. Quando me diziam "Ah e tal, vais lá para a China, ainda vais comer cobra e aquelas cenas que eles tem para lá..." deixava-me rir e nem punha tal hipótese e agora... No dia seguinte, no trabalho, ainda a recompor-me do jantar, comento com o pessoal que experimentei cobra, língua de pato, pernas de rã, lagartas e larvas. Fizeram-me todos um olhar enojado como que a dizer "Mas tu comes essas merdas?". Não percebo... De qualquer modo, o resto do tempo que passar aqui em Macau não tenho intenção de voltar a repetir este tipo de comida... embora as pernas de rã... mas não... vou me limitar ao delicioso dim sum! Isso sim, é boa comida Chinesa!

Há que ver o lado positivo da coisa, ao menos não serviram leite com preservativos...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sendo assim...

A única sensação que pode igualar a sensação de acordar na manhã do único dia de folga da semana, sabendo que se pode dormir mais umas horas, é a de sair do trabalho na véspera do dia de folga, ir para casa consciente que o ritual que se repete 6 vezes por semana não vai ser necessário no dia seguinte possibilitando que nessa noite se possa prolongar o tempo de lazer sem haver a preocupação de deitar cedo.

Numa dessas noites decidi ir jantar com o pessoal de Portugal, que também está a trabalhar em Macau, ao restaurante O Santos na parte velha da Taipa que, volto a realçar, tem uma bonita decoração e onde pude finalmente conhecer o famoso Senhor Santos, nascido em Montemor-O-Novo, antigo marujo e residente em Macau há mais de 20 anos mas ainda com sotaque alentejano e bem lembrado da localização de Moura e Pias.Enquanto olhava para o menu e comia o chouriço assado com pão e um pastel de bacalhau, apercebi-me que, apesar de já ser um conhecedor e apreciador da cozinha Chinesa, Coreana, Japonesa e Tailandesa, a comida Portuguesa quando me aparece à frente depressa desaparece e volto a lembrar-me que é sem dúvida uma das melhores cozinhas do Mundo.

Foi uma escolha difícil entre a posta à Mirandesa e os secretos de porco mas não me arrependo da decisão pois os secretos souberam-me pela vida enquanto ouvia as histórias de vida do Senhor Santos... e o leite creme também não estava nada mal!Após o jantar o pessoal levou-me a conhecer um pouco mais da vida nocturna de Macau. Até aqui tudo bem mas o panorama mudou por completo quando me apercebi que queriam ir para o MGM Grand, hotel-casino inaugurado a 18 de Dezembro de 2007 e onde há um espaço bem agradável para conversar, beber e dançar com música ao vivo todos os fins de semana. É que o MGM é o mais recente concorrente directo do Wynn, não tivesse sido construído mesmo ao lado, e eu como funcionário do Wynn senti um certo peso na consciência por estar a divertir-me na concorrência...

Ao chegar ao local comecei a observar quem frequentava aquele bar. Reparei que 1/3 do espaço estava a ser ocupado pelos estudantes estrangeiros da Universidade de Macau e a viver na Residência East Asia Hall, tal como eu. Bebiam e dançavam, alegres e sem preocupações, nem parecia que estavam em plena época de exames. Por momentos senti saudades dos tempos de estudante universitário... depois lembrei-me que a minha universidade é o Instituto Superior Técnico e que actualmente a minha conta bancária aumenta no fim de cada mês e não é com a mesada dos meus Pais... senti vontade de pegar num chicote e chicotear a mim próprio por ter tido um sentimento tão estúpido.Continuei a observar e reparo que se encontra ao balcão, a pedir mais uma bebida, um Americano que também está trabalhar no Wynn no departamento de gestão. Não fui ter com ele pois estava acompanhado e pareceu-me que iria interromper ou estragar o clima que se estava a criar entre os dois. De qualquer modo, ao vê-lo ali fiquei com um pouco menos de peso na consciência e senti que se alguém ficasse chocado por estar no MGM estando eu a trabalhar no Wynn poderia sempre dizer que não sou o único!

Passado meia hora e sempre a tentar divertir-me de um modo discreto e contido, reparo numa pessoa a chegar ao balcão. Botas à cowboy, calças de ganga, uma camisa e um casaco de ganga preto, alto e com o cabelo extremamente bem penteado e todo puxado para trás, na casa dos 40 anos e com uma aparência tipicamente Britânica. Era Ian Coughlan o presidente do Wynn Macau... Pega na cerveja que acabara de pedir e começa a falar com os restantes estrangeiros que estavam a seu lado, entre os quais o tal Americano do Wynn. À volta deles muitas Chinesas, extremamente bem vestidas e produzidas e sempre a tentar meter conversa e a pedir-lhes que paguem uma bebida... estranho...Começo a pensar "Bem... sendo assim..." e viro-me para o pessoal e digo-lhes bem alto "A próxima rodada é por minha conta!"... e finalmente consegui sentir que a noite de Macau é bem animada!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Ai! Senhores...

Há uns dias estava eu a sair do Wynn e a dirigir-me para o Grand Lisboa, onde fica a paragem de autocarros, quando o semáforo para os peões fica vermelho. Em Portugal tentaria atravessar a estrada mesmo com o sinal vermelho mas aqui em Macau nem me atrevo a tal coisa.

Para provar que tenho razão há um Chinês que decide arriscar e começa a atravessar... um carro que se encontrava ainda a uma distância considerável de imediato começa a acelerar, numa tentativa de conseguir atropelar o destemido peão, e a buzinar como que dizendo "Tu deves ser maluco, pá!" ou até mesmo um "Para a próxima não escapas!". O peão lá teve que dar uma corridinha para chegar ao outro lado inteiro.

Enquanto assistia a esta tentativa de assassínio, oiço ao meu lado alguém a exclamar algo que me pareceu "Ai! Senhores..." mas nem liguei muito pensando que era alguma expressão em Cantonês com alguma semelhança ao Português. O sinal dos peões passa a verde e retomo a minha caminhada.Quando estou mesmo a passar à frente da entrada do Grand Lisboa eis que volto a ouvir "Oooooh paaaá! Acho que é só o hotel que está aberto, o casino ainda não abriu!"... desta vez tenho a certeza que foi alguém que falou Português e ainda para mais de um modo nada normal mas antes delicado.

Começo a rodar a cabeça para ver quem está a meu lado e penso para mim "Ou a Caras pagou uma viagem a Macau ao José Castelo Branco e eu não sabia ou então já estou a dominar tão bem o Cantonês que parece que oiço Português!". Assim que acabo de rodar a cabeça, avisto dois homens com os seus 30 e muitos, talvez 40 anos, e vestidos da mesma maneira, calças de ganga justas e uma camisa rosinha mas um rosinha que não tem nada de másculo em comparação com o rosa viril do equipamento alternativo do Benfica. E lá iam os dois, todos contentes, quase a saltitar, a entrar no Grand Lisboa.

Tentei esquecer o que acabara de assistir e dirigi-me para o autocarro pensando "Ai! Senhores..."...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Hábitos

Todas as culturas têm os seus hábitos e por muito que se respeite esses hábitos isso não quer dizer que se tenha que os aceitar ou compreender. Em Macau há certos hábitos que nunca irei aceitar enquanto aqui estiver. Vou enunciá-los por ordem crescente de nojice.

Palitos - Essencial em qualquer mesa de restaurante tal e qual os pauzinhos, os talheres, o sal ou a pimenta. No fim de cada refeição continuam a conversar e entretanto sacam de um palito, com a mão esquerda aberta e todos os dedos esticados e juntos excepto o polegar que fica esticado mas perpendicular aos restantes dedos, encostam a mão esquerda à cara, entre o nariz e o lábio superior, de modo a que a mão direita possa levar o palito a todos os espaços entre os dentes. Para quê esperar pelo fim da conversa e ir à casa de banho fazer isso? Nada disso! Faz-se logo ali no momento para que os outros possam contar quantos pedaços de comida ficaram entalados entre os dentes. É informação preciosa!

Unhacas - Tal como o Português macho que habita na tasca do seu bairro, também o Chinês trabalhador tem a sua estimada unhaca. Com mais de 1cm de comprimento para além do limite razoável, a unhaca encontra-se bem estimada e fortalecida o suficiente para atingir o fundo de qualquer fenda ou pequeno espaço entre dois objectos. A prova de que o trabalhador Chinês é mais aplicado do que o Português é que a unhaca não se encontra apenas no dedo mindinho mas também no polegar para que deste modo se tenha uma pinça improvisada mas eficaz e sempre necessária para qualquer urgência ou imprevisto.

Cuspir - Não há hesitações, se se puxou de uma escarreta bem verdinha e pegajosa, há que expulsá-la o mais rápido possível e nem vale a pena ir à casa de banho ou pegar num lenço de papel. O que mais impressiona são os segundos de silêncio e concentração antes de puxar a escarreta. Fazem uma expressão com a cara e um som que mais parece que estão a tentar arrancar um pedaço da alma.
Não interessa se estão sozinhos ou rodeados de pessoas pois quando a escarreta se encontra na língua, depressa é projectada para o chão mesmo que alguém se encontre à frente. Isso já me aconteceu e senti-me o Sonic a fugir às bolas de fogo atiradas pelo Dr. Robotnik.
A pior foi quando ia no corredor do piso 10 da residência e antes da curva comecei a ouvir os sons... puxou... preparou... ZÁS! já está!... parei e vejo o estudante Chinês a fazer a curva. Assim que ele passa por mim, não houve que hesitar, ponho-me em bicos de pés, começo a dar passadas largas e sempre a olhar para o chão do corredor para evitar pontos brilhantes até chegar ao quarto.
Os caixotes de lixo à volta do Wynn estão divididos, uma metade tem gravilha para depositar as cinzas do tabaco e a outra metade é um buraco para depositar o lixo... eu acho que aquilo serve mais como cesto de basquetebol para os Chineses praticarem a sua pontaria...

Arrotar - O mais comum mas ao mesmo tempo o mais mortífero. Assiste-se ao fenómeno com mais facilidade em qualquer restaurante ou local onde se possa comer. Homem ou mulher, não interessa, e por vezes chega a parecer que a comunicação é feita por arrotos tal é o volume. Se um começa, os outros acabam, quase como uma orquestra. No fim não pedem por aplausos mas a verdade é que também não pedem licença, perdão ou o que quer que seja. Também ocorrem uns segundos de silêncio e concentração antes de o acto que resulta numa expressão facial como se estivessem, desta vez, a expulsar um espírito maligno de dentro de si.
O pior é que isto não acontece apenas à mesa enquanto se come, pode acontecer no sítio menos esperado como me aconteceu quando estava na casa de banho do Wynn, frente a um urinol, prestes a ter aquela sensação de alívio, quando um dos muitos dealers chega ao urinol ao lado do meu e solta um arroto bem sonoro... escusado será dizer que não consegui acabar aquilo que estava prestes a iniciar e passei o resto do dia com a bexiga desregulada.
Mas se acham que é azar apanhar um gajo que arrota no urinol ao lado do nosso no meio de tantos urinóis, imaginem então se estão a jogar futebol de 5 e o gajo da equipa adversária que decide fazer-vos uma marcação homem a homem é provavelmente dos gajos de Macau que mais arrotos dá no espaço de uma hora. Sentia-o a respirar nas minhas costas quando de repente... ZÁS!... sustenho a respiração e começo a correr, a tentar fugir dele e ele a correr atrás de mim a pensar que me estou a desmarcar... nojento, no mínimo nojento!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Estava um bocadinho alto, não estava?

A Universidade de Macau situa-se no cimo de uma pequena montanha na Taipa. Devido a este facto todos os prédios que constituem o Campus Universitário encontram-se desnivelados entre si o que provoca a existência de muitas escadas (entre as quais a famosa com 202 degraus para a sala de computadores) e elevadores. Por isso não é de estranhar que o acesso principal à residência universitária esteja localizado no 9º andar do prédio enquanto o acesso secundário (do lado oposto ao principal) é feito pelo piso 0 do prédio.Um dia estava eu a regressar da Taipa, depois de mais um passeio, e quando começo a aproximar me da entrada principal da residência (9º andar), começo a ouvir uma música e reparo que toda a gente na rua está com a cabeça inclinada para trás, a olhar para o último piso do prédio (21º andar), a tentar perceber de que janela vinha a música. Por momentos pensei que alguma banda Chinesa estava a tentar imitar os U2 e a fazer um vídeo semelhante ao do "Where The Streets Have No Name", gravado no cimo de um prédio. Tentei ouvir com mais atenção a música para perceber de que tipo era mas o som estava tão alto que acabei por não perceber. Ao contrário das outras pessoas que continuavam a tentar identificar a janela do último piso, eu decidi entrar na residência e dirigir-me para o meu quarto que fica no 10º piso.Enquanto subia as escadas apercebi-me que a música fora interrompida bruscamente. A calma voltava à residência. Ao entrar no quarto deparo-me com dois seguranças a falar de um modo muito sério com o Gardete que tinha apenas uma toalha de banho à volta da sua cintura e o tronco ainda por secar. Começo a olhar para o Gardete e não resisto a perguntar-lhe:
- Eras tu que estavas a ouvir a música?
- YA! - diz ele com um sorriso na cara.
- Porra! Pensava que a música vinha do último andar! - o Gardete volta a sorrir... (volto a lembrar que nos encontramos no 10º andar...)
Volto a perguntar-lhe:
- Querias ouvir música enquanto tomavas banho?
- YA! - o sorriso na sua cara não tem maneira de desaparecer...
Volto a olhar para os seguranças e reparo que eles estão com cara de poucos amigos. Numa tentativa de quebrar o gelo digo:
- Estava um bocadinho alto, não estava?
Os seguranças olham para mim e não dizem nada, virando as costas... Nunca tive muito jeito para quebrar o gelo...

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Será que faz sentido?

Estou na Ásia, é uma cultura diferente, sem dúvida, mas não posso dizer que a passagem de ano tenha sido muito diferente do que acontece em Portugal.

Fui jantar fora com pessoal do trabalho a um típico restaurante Chinês (não, não tem nada a ver com os restaurantes Chineses de Portugal... mas isso fica para outro dia...) e de seguida fomos para o Fisherman's Wharf que acaba por ser o Parque das Nações de Macau. Muita gente, entre as quais estrangeiros, e uma banda rock a animar o pessoal.

Chegaram então os últimos 10 segundos de 2007... aí talvez tenha notado a maior diferença. A contagem decrescente foi feita ao som das palavras "sap, gau, bat, tsat, look, mm, sei, saam, yi, yat!". E lá veio o tradicional fogo de artificio com umas fitas e papelinhos pelo ar enquanto as pessoas se abraçam e desejam um bom ano novo. De seguida e com muita dificuldade, arranjou-se um bar porreiro para beber uns copos, ouvir uma música e conversar pela noite fora...

Talvez não pareça muito emocionado a descrever esta passagem de ano mas talvez se deva ao facto de hoje, mais do que nunca, me aperceber da subjectividade do tempo. Estar a festejar as ultimas badaladas do ano e receber mensagens de Portugal a desejar um feliz 2008 quando essas pessoas ainda nem começaram os preparativos pois são apenas 16h... faz-nos ver que o Homem só utiliza esta contagem do tempo para se organizar melhor e ter noção se é suposto ter uma temperatura mais quente ou mais fria... Eu posso deitar-me agora e acordar daqui a umas 4 horas e telefonar para Portugal para festejar as ultimas badaladas de 2007 que entretanto festejei há 8 horas... acaba por não fazer muito sentido... ou será que faz?

Penso que no fundo não interessa muito se estamos em 2007, 2008 ou seja que ano for... os dias vão continuar a suceder-se e apenas temos que nos preocupar em vive-los da melhor maneira para nos sentirmos realizados e esperar que a saúde nos permita fazer isso pois a única certeza no meio desta subjectividade toda que é o tempo, é que não estamos a ficar mais novos e só se vive uma vez...

Tudo de bom para 2008 e todos os dias seguintes... independentemente da hora que os ponteiros do relógio marca!