Esta semana estou a participar na orientação dos novos alunos estrangeiros da Universidade de Macau. Tendo em conta que estou em Macau há mais de 2 meses e meio e já sou considerado um "veterano", a associação que me proporcionou o estágio pediu-me para participar nos jantares de modo a poder conhecer os novos habitantes da residência e ajudá-los a adaptarem-se o mais depressa possível a este país tão especial. Tem sido engraçado conhecer pessoas dos mais variados países (França, Espanha, Brasil, USA, Holanda, Colômbia, Alemanha, Suécia, sem contar com os que ainda não conheci...) e ajudá-los com as mesmas dúvidas que tive nos primeiros dias que passei em Macau.
O programa da orientação inclui, todos os dias, jantares em restaurantes de cozinhas diferentes. O primeiro jantar, na segunda feira, foi num restaurante de comida Chinesa. Fui com vontade de mostrar ao pessoal que a comida Chinesa é bastante boa se se souber escolher os pratos certos e como tal não havia motivos para preocupação. As organizadoras da orientação levaram-nos até um restaurante perto do centro de Macau. Ao entrar não estranhei muito o interior do restaurante pois era semelhante a outros dois onde tinha estado com o pessoal do trabalho. Quando estávamos todos sentados nas várias mesas à espera da comida as organizadoras pediram a todos para se levantarem e irem à rua ver a preparação do jantar. Estranhei e foi então que comecei a perceber que aquele tipo de restaurante Chinês não era bem igual aos que já tinha frequentado.
À entrada do restaurante havia uma espécie de cozinha exterior onde se encontravam várias pessoas a preparar a comida com alguns baldes à volta deles. Ao aproximar-me reparo que um dos baldes tem água com cobras lá dentro. Um dos "cozinheiros" tira uma cobra do balde, pega numa tesoura, espera que a cobra pare de mexer e com a tesoura arranca a cabeça da cobra. O corpo da cobra continua a mexer-se de um modo muito agitado mas já não há nada a fazer... a cabeça está no chão e não me parece que se consiga voltar a juntar nem com super-cola 3. De seguida e sempre com a tesoura, começa a fazer um corte ao longo de 1 metro de comprimento do corpo da cobra para poder arrancar a pele e retirar os intestinos. E está pronta a ir para o lume!

Ao lado dos baldes encontrava-se também uma gaiola. Olhei e vi um grande amontoado de rãs. Outro "cozinheiro" abre a porta da gaiola e agarra numa das rãs. Coloca-a numa mesa, pega numa faca de talho, faz pontaria e vejo a cabeça da rã a voar até parar no chão perto dos pés de uma das estudantes que ficou com um ar ainda mais enjoado do que já estava... O "cozinheiro" depois limita-se a apertar o corpo da rã de modo a que os intestinos saiam pelo interior do pescoço que ficou à vista de todos depois daquela facada precisa. Retiram depois a pele, cortam o resto do corpo em vários pedaços como se de um frango se tratasse e está pronta a ir para o lume!

Mandaram-nos de volta para dentro do restaurante, para nos sentarmos e começarmos a comer. Veio uma travessa de arroz, umas espécies de camarões, carne de porco agridoce, noodles (ou chao min como chamam em Portugal) com tiras de carne de vaca e alguns vegetais cozidos a servir de salada. Nada daquilo me era estranho e como tal atirei-me ao porco agridoce que é simplesmente delicioso. Entretanto metem na mesa um prato com vários pedaços de carne mas apesar das inúmeras perguntas as orientadoras não nos respondiam. Pego num dos pedaços e começo a comer. A carne não tinha muito sabor e ao mastigar mais parecia pastilha elástica e tinha uma pequena cartilagem no centro que não dava para comer. Após todos (ou quase todos) provarem acabam por nos dizer que são línguas de pato. Sinceramente, prefiro a língua de vaca ou borrego.
Passado uns minutos uma das orientadoras traz um prato numa mão mas bem alto, sem nos deixar ver o que está lá dentro, e uma colher na outra mão e começa a distribuir um pedaço da comida que está no prato a cada um de nós sem dizer o que é. O sabor até é agradável e come-se bem. Perguntamos o que é. A orientadora pega numa taça e tira de lá uma minhoca viva com cerca de 10 a 15 cm de comprimento e 2 cm de grossura e mete-a no meio da mesa. Alguns levaram a mão à boca, eu fiquei a olhar para a minhoca a pensar "então é a isto que tu sabes... está giro!".
Próximo prato surpresa é posto em cima da mesa à vista de todos. Parece pedaços de pescada frita. Começamos a comer. A carne é muito fina e encontra-se muito perto das supostas espinhas. É agradável mas não muito saboroso. A orientadora pergunta-nos se gostamos da cobra... não estava mal... podia ser mais gorduchinha...
Mais um prato na mesa. Este não dá para enganar, pelo formato dos pedaços são as pernas de rã. Uma carne branca e brilhante a rodear um pequeno osso. Pego numa e começo a comer como se fosse uma pequena perna de frango assado. Delicioso! Volto a repetir mais umas vezes. Um autêntico petisco!
A orientador chega com outro prato e mostra-nos algo que parece uma tarte feita à base de ovos. Com uma colher tira pedaços e começa a dar de comer a cada um. Já nem perguntamos o que é antes de toda a gente provar o prato. Não tem um sabor muito agradável e é seco. A orientadora coloca a tarde no meio da mesa e começamos a olhar para o interior da tarte. Reparamos que há algumas lagartas no meio da tarte. Dou um golo mais prolongado na minha Tsingtao para tirar aquele sabor das goelas e não volto a repetir. Prefiro a tarte com fiambre e queijo ou com cogumelos...
Último prato. Bem lá no alto para ninguém ver. A orientadora pede-nos para fecharmos os olhos e abrirmos a boca. Com a colher deixa cair um pequeno pedaço para dentro da boca de cada um. Assim que cada um mastiga pela primeira vez temos todo o tipo de reacções. Uns começam a cuspir para o prato, outros engolem de imediato e atiram-se à Tsingtao como se tivessem passado vários dias num deserto. Um dos estudantes pergunta se alguém quer pastilhas Fresh Air. Acabaram em 5 segundos. Perguntamos o que é. A orientadora coloca o prato no centro da mesa e diz-nos que é o ovo dos insectos, ou por outras palavras, larvas.

Acabo o jantar a pensar para mim mesmo que vim com a intenção de orientar o pessoal mas acabei por ser bem enganado. Quando me diziam "Ah e tal, vais lá para a China, ainda vais comer cobra e aquelas cenas que eles tem para lá..." deixava-me rir e nem punha tal hipótese e agora... No dia seguinte, no trabalho, ainda a recompor-me do jantar, comento com o pessoal que experimentei cobra, língua de pato, pernas de rã, lagartas e larvas. Fizeram-me todos um olhar enojado como que a dizer "Mas tu comes essas merdas?". Não percebo... De qualquer modo, o resto do tempo que passar aqui em Macau não tenho intenção de voltar a repetir este tipo de comida... embora as pernas de rã... mas não... vou me limitar ao delicioso dim sum! Isso sim, é boa comida Chinesa!
Há que ver o lado positivo da coisa, ao menos não serviram leite com preservativos...